domingo, 13 de março de 2011

A cruz e o destino


    
                                                                        Homenagem a José Saramago

 - Estou falido!- disse o empresário. O seu negócio ruiu, não por incompetência deste, mas pelas garras do destino.  Do destino financeiro, que é ainda mais cruel que o destino dito pessoal. Porque neste, suas ações erradas hoje, refletem num futuro à vezes um pouco distante. Já no primeiro, as ações erradas hoje podem refletir hoje, daqui a pouco, amanhã é incerto o momento e o impacto. Pode levar uma fortuna de milhões a nada, uma família a sarjeta, um homem a loucura.
- Eu tenho amigos, tenho influência, logo voltarei ao meu poder.
Falou isso segurando o papel do banco que comunicava a falência de sua empresa. Nela já não existia móveis, tudo estava recolhido. Exceto seu terno que acabara de apanhar do chão para ir embora.
- Pelo menos me sobrou este.
Pegou a sua pasta e saiu da sua firma, melhor, ex-firma. Retirou o celular do bolso e ligou para um amigo a fim de comunicar o ocorrido e pedir ajuda.
- Droga está na caixa postal. Alô, Julio aqui é o Pedro, quando puder ligue para mim.
Saiu andando pela rua. Estava muito contente para alguém que faliu. Sua alegria tinha motivo, ele estava certo da ajuda que iria receber dos amigos, afinal, todos deviam favores a ele. Queria chegar logo a sua casa, tomar um banho e entrar em contato com seus amigos.
Ao chegar ao seu prédio não falou com ninguém, nem porteiro, nem zelador. Seria impertinência demais eu me rebaixar a tanto. Tomou o elevador e dirigiu-se a seu andar. Abriu a porta de seu apartamento e sentiu com a leve pancada de ar que bateu em seu rosto que havia algo estranho. Estava tudo muito silencioso. Mesmo já tendo demitido os empregados, e o ritmo do di-a-dia ter diminuído, onde estava a sua filha e esposa?
- Querida, cheguei. Filha?
Nada. O silêncio foi a sua resposta. Viu ao lado do telefone um bilhete, era da sua esposa, nele estava escrito o seguinte: fui embora com minha filha, não me procure, não aguento mais essa vida. Depois ligo para você. Boa sorte!
- Desgraçada, vadia!
Ele amassou o papel e o jogou longe.
- Vou recuperar o meu patrimônio, essa vadia vai ver... Eu vou me casar com uma mulher melhor que ela, mais nova, mais bonita. Essa puta vai querer voltar para mim, mas não vou aceitar. Vou dar só os 10% referentes à minha filha e só.
Porém os dias seguintes se mostraram amargos. Os telefones dos amigos só davam na caixa postal e nenhum deles retornava a ligação. Quando decidia comparecer pessoalmente ao local de trabalho deles esperava um longo tempo até ser atendido. Quando era atendido, todos se mostravam ocupados e distraídos: escrevendo relatórios, falando ao telefone e abrindo e fechando gavetas, procurando por nada.
- Meu amigo, estou falido. Preciso de sua ajuda, qualquer que for.
- Ah? Eu sei. Sei sim, mas não posso fazer nada, a crise está muito grave. Desculpe.  E o amigo atende o celular: Alô, sim diga...
 Saía revoltado: canalhas! Quando era rico e influente todos me babavam, agora que estou na pior me repudiam. Ajudei muitos a serem o que são. Quando voltar não quero saber de nenhum de vocês.
Ele pegou o seu celular e arremessou no canal, não queria ter contato com nenhum deles. Queria pensar numa maneira de resolver seu problema.
Sentou numa praça do centro da cidade pela primeira vez desde que se tornara rico. Admirou a beleza do lugar. Mas depois enjôo. Levantou-se e decidiu sair andando pelo centro à toa. Sem saber aonde ir, nesta caminhada começou a ter uma visão.
- Estou ficando louco?
Todas as pessoas que passavam a sua frente, ou que ele via rapidamente, carregavam uma cruz nas costas. Alguns carregam uma muito grande e pesada. Outras uma pequena. O que estava vendo começou a deixá-lo confuso.
- O que é isso?
Quando decidiu olhar para si, viu que também carregava uma e muito pesada por sinal, chegou a pender um pouco com o peso. Ela era tão pesada que mal conseguia arrastá-la quando andava. No meio dessa visão transfigurada, percebeu que tinham pessoas que não agüentavam o peso de sua cruz e caiam no chão. Muitas de idade, outras não. Todas que caiam clamavam por ajuda. Mas em ambos os casos, as pessoas que passavam ao lado dessas não paravam para ajudar. Mesmo que carregassem uma pequena cruz, não paravam. Passavam que nem olhavam, como se no chão estivesse a imundície.
Cansados de pedir ajuda ou de esperar a boa vontade alheia, estes decidiam tentar andar, tentar sair dali. Levantavam-se e seguiam em frente e logo se misturavam a multidão. Jesus carregou sua Cruz por um longo caminho. Carregou sua cruz que todos viam e ninguém podia ajudar, todos olhavam, alguns xingavam. Coroado com a coroa de espinhos, marcado com os chicotes, ele cumpriu seu calvário até a morte. Ele sabia que ia morrer, mas continuou até o fim os seus passos. Na sua vida teve traição, teve miséria. O rei dos Judeus apanhando como um ladrão, foi humilhante. Ele carregou sua cruz.
Hoje quem carrega uma cruz sabe que a sua é bem menor que a do Cristo
Pedro decidiu ir para casa, precisava relaxar. Mas o peso da cruz que carregava o fez demorar muito a chegar. Outra vez fingiu que nem viu o porteiro e o zelador, porém percebeu algo de estranho neles. Ambos também carregavam uma cruz nas costas.
Ao chegar a seu apartamento, constatou que não tinha nada lá. Viu que a porta estava arrombada e a justiça havia levado tudo dali. Leu o documento oficial que estava no chão e que esclarecia tudo.
Chorando muito decidiu se matar. Entrou no apartamento, abriu a porta da varanda e olhou para baixo. Eram doze andares.  Tentou se livrar de sua cruz, para melhor conseguir apoio para se jogar. Mas não conseguiu; não conseguiria se livrar de sua cruz nem na hora da morte.
Então, com ela mesma agarrada a seu ombro, subiu no para peito da varanda e se jogou.
Tudo parecia mais leve para ele agora, mas a cruz continuava em suas costas.

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