domingo, 29 de setembro de 2013

Tortura


Escrever pode parecer um ato de libertação, porém o escritor é um prisioneiro. Enquanto ele pensa que está livre botando para fora aquilo tudo que está entalado, engasgado ou preso que quer sair e ganhar forma no papel, ele está cada vez mais preso à procura da perfeição.
Quando começa a escrever ele se alivia no início e no fim. No início porque está conseguindo botar no papel aquilo que o atormenta. No fim, se alivia porque finalmente concluiu o texto.
O meio do texto é só tortura, é pesadelo, é suor, trabalho, sacrifício, morte, vida, vida e morte. Escolher palavras não é fácil, até porque elas não são presas fáceis, elas lutam paa não sair, para não ganhar corpo e viverem longe de seu dono. Enquanto o escritor sufoca porque as palavras não querem sair dele e desengasgar a sua respiração, ele pestaneja, chora, delira e desiste várias vezes e volta outras várias para o famigerado trabalho.
Aqueles que dizem se libertarem escrevendo, só pensam no fim do texto, o meio fazem questão de não lembrar. As palavras torturam. Nenhuma liberdade vem sem luta.
Mas nem sempre o fim é o fim. Dez anos após ter escrito aquele texto o escritor volta a lê-lo, acha bobagem, encontra erros e sente vontade de rasgá-lo, enterrá-lo e sente-se envergonhado pelo que produziu. O texto volta a torturá-lo. Ele não pode fazer nada mais. O texto vive no coração das pessoas, sua vergonha de hoje é o mote de muitos.
O escritor negará seu texto bem mais que três vezes, dirá que hoje escreveria diferente. O texto seria melhor, não sairia assim jamais.
Um texto nunca termina, por algum momento o escritor pode achar que concluiu, mas basta os anos passarem que ele verá todos os textos como rascunho, lixo e como um traço mal escrito de sua alma

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Todo dia era dia de índio.

Parabéns ao índio! Não aquele índio de estereótipo dos filmes Hollywoodianos. Não aqueles índios que no tempo do colégio as professoras inocentemente nos faziam colocar o cocar, ou uma pena, para ficarmos brincando, como que cultuando uma falsa união das três raças. Não o índio branco, amarelo ou pálido dos Romances da época do Romantismo Brasileiro, que numa vertigem desenharam o índio bom, o índio moço, o índio católico e herói, sem de fato debater seu extermínio. 
Sim eles foram exterminados, escravizados, expulsos de suas terras e seus direitos... Diretos? Seus direitos foram colocados ao relento. 
Um viva aos índios de verdade, não os caricatos! 
Um viva aos índios que foram obrigados a se matar para não terem que sofrer com trabalhos forçados impostos pelo homem branco. 
Um viva aos índios que contrariam doenças de branco.
Um viva aos índios que perderam sua identidade por causa de um processo de aculturação que definia a sua cultura, a sua língua e sua vida como Selvagem, primitiva e inferior.
Um viva aos índios do presente que lutam para terem seus direitos reconhecidos, sua cultura respeitada e suas TERRAS DEMARCADAS.
Todo dia era dia de índio.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Cartas de amor em época de sms




- oi amor, vc ta bem?

3 minutos depois...

- oi bebe, to otimo,e vc ta boa?

Alguns segundos depois...

- estou otima. Pq vc demorou a me responder?

um minuto depois...

- amor, to no trampo, fica complicado ficar no sms.

alguns segundos depois...

-mas nem pra me dar atenção? nossa, como vc ta frio....

cinco minutos depois...

- desculpe, mas no trabalho, meu chefe ta na minha cola, em casa falamos mais.

alguns segundos depois...

-ok, quando tiver tempo para mim a gente se fala.

tres horas depois...

-oi bebe, largou?

Dois minutos depois...

-ainda não, amorzinho. Largo em uma hora

Alguns segundos depois...

-ok, vou me recolher a minha insignificância.

Um minuto depois...

-oh amorrrr.

Uma hora depois...

- larguei, bebe, vc ta com saudade?

Alguns segundos depois...

- amorrr, to sim morrendo muito muito muito mesmo.

Alguns segundos depois....

-to cansado, pense numa pessoa com saudade tb, desde ontem ñ te vejo.

Alguns segundos depois...

-vem me vê hj, essa ausencia ta lasca.

Alguns segundos depois...

-vou comer em casa e depois eu vou ai, ta?

Alguns segundos depois...

-vem mesmo, vamos nos alimentar.

Uma hora depois...

-to em casa, jaja chego ai.

Alguns segundos depois...

-ebaaa, to esperando.

Alguns segundos depois...

-tava lendo no busao, antigamente os namorados se comunicavam por cartas que levavam dois dias para chegar, imagina?

Alguns segundos depois...

-não imagino, ñ sei como conseguiam, aff e muiiito tempo. Com um minutinho fico pra morrer de curiosidade

Alguns segundos depois...

-é, temos sorte.

Alguns segundos depois...

-sorte tem vc de me ter

Obs: as palavras não levaram acentuação de propósito.
Obs2: não há erros de português, o texto está perfeito assim. 

domingo, 24 de março de 2013

Estupro



Que abuso, querem devastar minha intimidade. Pegaram meus escritos, meus rascunhos e olharam atentamente como desnudando meu ser. Senti-me como uma mulher sendo devorada por olhares vorazes de homens famintos. Senti-me impotente, sem roupa e invadido na íntima privacidade. Meus textos são para meus leitores e não para meus amigos e parentes. Amigos e parentes me conhecem, me desnudam no dia-a-dia, o único lugar de libertação que possuo, o único lugar que posso metamorfosear as pessoas de meu convívio e homenageá-las ou chingá-las, não sei, tudo depende de meu humor, são nos meus textos. Meus!
Não sei quem deu tal permissão, invadir meu quarto como um posseiro, vasculhar meus livros e cadernos como detetive e desfolhar meus textos, meus textos como se fossem seus. Absurdo, no mínimo desrespeitoso e apavorante. Tanto trabalho que tenho para escrever um hora por dia, vejam, dedico um hora de um dia de 24 horas para fazer o que mais gosto. As outras 23 são um martírio, uma devassidão imensa e surreal, fico oco, recolhendo informações para colocar naquele papel branco e ameaçador.
Medo? Tenho muitos, no início tive medo do desconhecido, atualmente perco uns e vou ganhando mais. O que tenho mais medo agora, por exemplo, é que me desnudem novamente e eu fique desamparado sem saber a quem pedir ajuda. Estou completamente fraco e sozinho.
Quando estamos indo atrás de palavras para colocar no papel, não sabemos o que vai sair dali, talvez o que escrevi nem eu mesmo queira publicar. Mas é meu, eu decido o que fazer com aquele aborto literário.
Imaginem, me desnudar assim... Ainda sinto o coração tremendo e o suor frio descendo pela espinha quando a vi sentada na cama, olhos curiosos e boca entreaberta com admiração por ter descoberto meu segredo. Todos sabem que escrevo, mas não sabem como chego no que escrevo. Nossa, esta imagem ficará muito tempo em mim, um trauma, um estupro.

terça-feira, 12 de março de 2013

Exaltação do Recife nº 0




Exalto o Recife fedorento e esquecido das prostitutas e dos cabarés.
O Recife feio, que todos querem fingir que não existe, mas subexiste.
Exalto o Recife dos engarrafamentos e da pouca mobilidade
Que todos protestam para resolver e ninguém resolve.

Exalto o Recife do calor infernal, que de rio tem o Capibaribe que já virou canal. .
Exalto o recife dos camelos, dos ambulantes e dos feirantes
Que vendem produtos de baixa qualidade
Nas vielas e becos históricos.

Exalto o Recife escondido debaixo das Pontes
Esquecido nas páginas policiais
O Recife bom, o Recife velho é apenas uma metáfora
Nas fotografias e mentes dos Recifenses.

Exalto o Recife das grandes construtoras que compram os casarões
E constroem edifícios modernos, apagando a história

Exalto o Recife que ninguém quer que exista e todos querem
Que não viva.
Mas ele pulsa, ele fala, ele sobrevive e procria
Nas ruas e becos, nas falas e gestos
Nas páginas dos jornais
Nas lamas e nos quintais.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Cola



Eram 16:30, o sol já perdia sua força na cidade do Recife e as pessoas começavam a recolher-se para suas casas após um dia inteiro de trabalho. O ônibus parado em frente à praça do Diário tinha poucas pessoas, mas, em breve, estaria cheio. Subiram quatro pessoas nesta parada e o motorista deu, por fim, a partida. Subiu um senhor de 60 anos com uma sacola imensa nos braços, na certa era ambulante. Carrega nas costas o peso de seu trabalho e no rosto o peso de sua idade. Começou cedo a trabalhar. O pai, que era comerciante do Recife em tempos áureos, criou todos os filhos assim e deixou para o mais velho, como herança, a disposição para ganhar a vida.

O senhor não percebeu, mas na penúltima fileira havia um garoto cheirando cola, o cheiro podia ser sentido por todo o coletivo, mas o garotinho era quase invisível e o senhor acreditou que o cheiro vinha pela janela, já que naquela região a delinqüência era muito grande.

A senhora evangélica, que subiu logo atrás do senhor, percebeu o moleque quando andava pelo corredor do ônibus procurando um local para sentar e, ao avistá-lo, freou o passo e procurou um local pelo meio do ônibus onde poderia ficar segura. Era evangélica e acreditava que todos os males do mundo provinham da falta de Jesus na vida das pessoas. Ficou tentada a levantar e ir ler um Salmo para o “cheira-cola”, mas teve medo. Abriu um saco de pipoca e esqueceu do mundo. O cheiro de cola misturado com o cheiro da pipoca causaria um enjôo, guardando, em breve, a pipoca na bolsa para comer mais tarde.

O menino continuava lá atrás, quietinho, cheirando sua cola e olhando a janela vendo o nada. Seus bracinhos, seguravam a garrafinha com cola de forma maestral e, vez ou outra, ele dava uns relances de mudar o rosto de posição, ajeitar-se na cadeira e fitar as pessoas que entravam no ônibus.

A terceira pessoa a entrar foi uma garota com um fone no ouvido. Cabelo preso, calça jeans, camisa regata e óculos escuro. Sentou na última cadeira do coletivo, mas logo se arrependeria.  Percebeu o menino do lado oposto ao seu cheirando cola. Não teve medo, mas teve raiva. Queria matar todos os marginais de rua e inclusive aquele garoto. Se tivesse uma arma ali mandaria aquele garoto descer na base da pancada, e ai dele se não descesse. Aumentou um pouco o volume da música que ouvia e logo ficou enjoada com aquele cheiro, mas já seria tarde para mudar de lugar, pois o ônibus logo estaria cheio. Seu enjôo, descobriria mais tarde, também tinha a ver com sua gravidez ainda desconhecida.

O garoto não se incomodou com a menina, não a fitou. Olhava pela janela enquanto ela passava. Seus olhinhos vazios não pensavam e seu ser não sentia nada. Cheirava apenas, consumindo sua existência naquela garrafa.

A quarta pessoa que subiu foi um rapaz de 28 anos. O homem vinha procurando emprego e seu semblante refletia uma agonia infinita. Estava desesperado para ter, por fim, orgulho de si. Jamais tentaria suicídio, adorava muito viver e queria mostrar do que era capaz. Não tinha muito estudo, mas tinha muita determinação. A sua pele preta e seu cabelo enrolado eram sua identidade. Assim que passou pela catraca percebeu o marginal, e teve medo de ser roubado. O garotinho preto parecia bastante ameaçador. Sentou na primeira fila para não correr perigo de ser perturbado, e desejou imensamente que quando fosse descer aquele pivete não mais estivesse no ônibus.
O motorista parou em dezenas de paradas e em cada uma subia mais gente, até que chegou um momento que não subia mais ninguém, apenas iam descendo, aos poucos, os passageiros até o ônibus chegar ao seu destino.

O ônibus foi ficando lotado de uma hora para outra, e aquele cheiro de cola intrigava os passageiros da frente e intimidava os que sentaram atrás. A poltrona ao lado do garoto foi a última a ser ocupada. Um jovem desatento, com bolsa e farda, foi o último a sentar e não viu quem estava sentado ao lado. Só percebeu quando o cheiro de cola entrou por suas narinas e foi então que viu aquela figura grotesca alimentando suas narinas com aquele odor fétido. Se tivesse visto jamais sentaria ali, teve medo de perder seu relógio e de sujar a farda.

Na poltrona de trás do “cheira cola”, sentou uma mulher com um bebê de colo que esbanjava sorriso e distribuía beijos para a mãe. A criancinha, miúda como uma formiguinha, não falava, não tinha dentes e não percebia nada ao seu redor que não fosse cor e som. Não teve medo, não teve raiva, apenas sorria. A mãe, um pouco preocupada, tentou mudar de lugar, mas desistiu quando o motorista deu partida e o risco de cair com o bebê era muito grande. Os passageiros que foram em pé, olhavam a criança e ficavam encantados; os da lateral da mãe deram duas ou três olhadas e resmungavam do cheiro insuportável de cola.

O marginalzinho olhou o bebê nos olhos, mas seu olhar não tinha força de expressão, era um olhar triste e caído de quem tinha sono, muito sono. Não sabemos o que pensou aquele delinqüente, só sabemos que ele olhou fixamente e depois cheirou mais uma vez o tubo de cola.

As pessoas viam o garoto e depois não queriam mais vê-lo: era feio, cheirava cola, fedia e tinha piolhos. O homem mais alto do coletivo pensou em sentar no lugar do marginal, mas teve medo da reação das pessoas, já que ninguém reclamava e a viagem seguia.Pensou que todos estavam tolerantes com aquela cena grotesca. A viagem seguiu num silêncio sepulcral: os da frente intrigados com o cheiro da cola, os de trás com medo, ódio e revolta. O silêncio maior era do garoto, que não percebeu o ônibus encher de gente, nem percebeu o ódio no olhar das pessoas.

A sinfonia da viagem era o barulho do motor, as buzinadas da rua e os passos dos passageiros.

Um homem bem vestido, sentado no meio do coletivo, olhava inquieto para os lados e para frente. Parecia não conhecer o lugar e indagava para si onde deveria descer. Não sabia e não perguntava. O pavor aumentou quando o ônibus encheu e ele não sabia a quem perguntar.

O garoto olhava para a rua, coçava o nariz e não exprimia mais reação. Não tinha medo, não tinha calor, não pensava, não tinha sonhos. Estava ali, inerte no meio daquelas pessoas importantes.

A viagem foi longa, o cheiro de cola deixou muitos passageiros embriagados. Mas este era o alimento do marginal, e ele estava compartilhando com os passageiros. Sim, ele que não tinha nada, nem onde cair morto, compartilhou a sua única alimentação do dia com todos os passageiros do coletivo. E cada um deles, trabalhadores ou não, que comiam três vezes ao dia, que dormiam numa cama forrada de lençol e podiam pagar a passagem do ônibus, não dividiam suas comidas com ninguém, mas neste momento estavam ali, recebendo o néctar da criança.

O garoto, que por instantes era notado, mas depois era invisível, se morresse ali ninguém iria socorrer; se gritasse de dor ninguém se importaria, deixariam que este ser tivesse o fim que merecia. E num ritual de completa solidão, o garoto que pegou aquele coletivo por acaso, cheirava sua cola imberbe e perdido. Não tinha forças, não tinha brilho, não tinha nada. Abriu um dos braços como que querendo dormir encostado na janela – ninguém notou – se acomodou mais naquela cadeira e deu uma tragada mais forte no tubo de cola.

Abaixou a cabeça, fez o sinal da cruz e prosseguiu na sua viagem. Não tinha nome, não tinha história, não tinha vida. Aquilo que ele era não tinha definição. O motorista acelerou mais o ônibus, agora que saíra do engarrafamento podia recuperar o tempo perdido. Limpou o suor da testa e ligou o rádio que tocava uma destas músicas que exaltavam as belezas da vida.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Rapidinha.



E quando você encontra, ou reencontra outros escritores que trabalham produzindo artes poéticas para ninguém, ou quase ninguém, você se pergunta se é um encontro de poesias inacabadas ou poetas inacabados. A dúvida e o “ou” constante são apenas o mínimo reflexo da confusão que paira na mente deste ser que respira um verso, mas quase sempre cospe vogais soltas e num encontro desses, com velhos parceiros, simplesmente quer cuspir tudo o que digeriu do papo poético que teve.
A escrita perpassa não só pelo trabalho árduo de você conseguir colocar no papel o que sente, é também, ser capaz de transmitir para outros o que você pensa e aprender o que eles pensam. Sentamos num bar, conversamos pouco, os dias corridos roubam tempos de prazer e as palavras que gostaríamos de ter tempo de escrever: as palavras saem, mas surgem fatigadas pelo dia longo de cansaço.
Amizades não morrem, esfriam e basta uma chama que reacende. Nosso tempo de vida exige o ontem, pois para chegarmos no dia de amanhã devemos nos antecipar e termos “know how”. Já no tempo dos amigos, vivemos o ontem, pois o amanhã pode não chegar e precisamos dizer tudo que temos para dizer naquele curto espaço de tempo a que chamam de lazer.
E o tempo passou rápido, e como passou rápido, mal nos cumprimentamos na chegada com abraços e sorrisos, e já nos despedíamos prometendo um até logo, mas o até logo não tem um dimensão concreta e pode levar outros longos anos...