sexta-feira, 7 de março de 2014

O grupo Baader Meinhof ou "Baader Meinhof Blues"?

                 
Sabe aquela música da Legião Urbana, "Baader Meinhof Blues"? Faz sentido para você? Pois bem, ela foi inspirada num grupo de extrema esquerda que surgiu na Alemanha Ocidental (capitalista) em início dos anos 70, o Grupo Baader Meinhof, ou Bando Baader Meinhof, como chamava a imprensa Alemã, tentando desmoralizar o Grupo.
                     Baseado em fatos reais, o filme “O grupo Baader Meinhof “  de 2008 conta a história deste grupo, que através de muita violência, seqüestros e assaltos, montou o que eles chamavam de guerrilha Urbana Comunista para  combater o Estado Fascista Alemão, veja, estamos falando da Alemanha pós 2º guerra, pós Hitler. Inspirados em idéias Marxistas/socialistas, o grupo "tocou o terror" na Alemanha nos anos 70 e 80, sendo extinto em fins dos anos 90. O filme foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, bem como ao Globo de Ouro. O projeto cinematográfico é fantástico, com cenas de muita violência e com um roteiro eletrizante, conseguiram recriar a atmosfera política e de lutas que ocorriam na Alemanha. Veja o filme, depois vá ouvir a música da Legião Urbana e perceba se fará mais sentido.




quinta-feira, 6 de março de 2014

Considerações do Oscar



Acabei de assistir "Her" e o filme é genial, certamente vai demorar para me impressionar assim com um filme, no sentido de ser tão bem escrito. Mereceu ganhar o Oscar de melhor roteiro original, porém merecia mais, ou pelo menos mais indicações. Joaquin Phoenix ter ficado fora da lista de indicados de melhor ator foi uma injustiça tremenda, o cara foi o filme praticamente sozinho e sua atuação nas cenas foi perfeita. No mais, a injustiça com o Lobo de Wall Street também foi gritante, este certamente entrará para o Hall de injustiças do Oscar ao lado de tantos outros. Na certa a academia agiu com um certo temor em premiar um filme que contava a história de um cara que fraudou milhões de pessoas com o sistema financeiro, sendo recente ainda as cicatrizes da crise nos EUA. Li matérias que o Di Caprio e o Scorsese receberam milhares de cartas e críticas por terem feito este filme e praticamente "elogiado" a vida do personagem retratado; certamente a academia conservadora foi pressionada também e resolveu não cair em polêmicas (mais).
O filme foi impecável na direção, no roteiro adaptado, na fotografia e na atuação de Leonardo di Caprio, porém nada disso agradou a academia que mais uma vez deixou no "vácuo" um belo trabalho cinematográfico. Não deixarei de elogiar o filme e a atuação dos atores de Clube de Compras Dallas, também foi muito bom,

e a dobradinha de melhor ator e melhor ator coadjuvante realmente premiou a interação dos dois  no filme e não foi nenhuma aberração eles terem ganho os respectivos Oscars. Mas é certo que o Di Caprio teve sua melhor atuação dos últimos tempos, pelo menos que eu vi, mas não só isso, Di Caprio conseguiu ir além do padrão comum de atuação, ele foi "o personagem".

sábado, 14 de dezembro de 2013

Pré-natal

Oito meses e três semanas, a barriga estava pela boca. Estava pela boca também todo o seu ar, seu cansaço e a ansiedade de quem é de primeira viagem. A mão que circundava a esfera a cada instante, transmitia amor e um calor para aquele ser que ainda nem se fez, mas já chegará tendo responsabilidades. O ar de mãe no rosto sempre lhe coubera, antes mesmo de saber que estava grávida todos já sabiam, ali seria uma grande mãe.
Olhando a sala silenciosa, lotada, perdia um pouco a tensão, tantas mães no mundo, quantos será que vão nascer no mesmo dia que o meu? A sala de espera era aflitiva, sentada, com a barriga pela boca, as mulheres suavam frio; outras com crianças já de colo faziam a trilha sonora daquele lugar de esperanças e mistérios.
Voltou os olhos furtivamente para a televisão, apenas para ver se conseguia entender algo, mas só via as imagens, ouvir era quase impossível. Continuou a se entreter com as pessoas ao seu redor, sem dizer nada apenas olhava. Seus olhos falavam por si, a curiosidade de ver outras grávidas, saber quantos meses, se seria menino ou menina, qual seria o nome e tantas perguntas que fazia com o olhar, mas que não esperava resposta.
Uma delas lhe chamou a atenção, pois conseguia dormir sentada naquela cadeira dura, que mal apóia, neste calor e com este barulho. Ou estava muito cansada, ou era muito despreocupada. Mas impossível ser despreocupada quando você é responsável por outra vida, uma vida que ainda nem começou, mas que em breve terá sua história.
O tempo não passava, aqueles vinte minutos na cadeira já incomodavam bastante, nenhuma posição era boa. Levantou-se da cadeira e foi andar um pouco exibindo o barrigão, até andar era uma aventura. Alisava a barriga constantemente. O tempo passava devagar naquela tarde, as crianças choravam e brincavam, brincavam e choravam, num contraste de emoções e barulhos que poderiam fazer qualquer um não querer ficar ali, mas era preciso, sempre era preciso.
Em pouco tempo caminhar incomodava, o calor incomodava e até o silêncio, se houvesse, iria incomodar. A cara pálida, o batom vermelho, o sorriso no rosto e os cabelos presos sem um corte definido faziam uma mistura de renascimento com decadência de um ser.
Seria a próxima, anunciou a secretária. Justo neste momento a demora é maior, justo neste momento a que entrou antes demora mais e mais que todas as outras.
Carregava consigo os exames, as receitas, as dúvidas e tudo que pudesse caber em sua consciência.
Naquele lugar havia um pacto secreto de que homens eram proibidos, porque só as mulheres ficavam e só elas agüentavam esperar, os maridos deixavam-nas ali e saiam em seguida. Não havia placas, não havia recomendações, mas nenhum homem ficava naquele local, fato curioso que não tem muita explicação.
Chegara sua vez, entrou na sala, acomodou-se na cadeira, mas aquela posição também não era boa, mas mesmo assim mostrou os exames ao médico. Olhando cada folha atentamente, procurando cada letra mágica, o médico folheava aquela papelada toda, fazia perguntas para a futura mãe e no fim deu o diagnóstico:
-Bem, bem, oito meses e três semanas não é? Semana que vem ele vem ao mundo, está tudo bem, tudo perfeito.
O sorriso na cara da mãe ganhou um novo tom, agora estava corada. Ela já tinha lido todos os resultados, mas mesmo assim ficou com medo, poderia ter algum código ali que não entendia, alguma palavra que dissesse algo que não conhecia.
O médico olhou para o calendário, marcou a data com ela, trocaram algumas palavras e ela por fim sairia aliviada.
De repente ela começou a sentir saudades daquela barriga, de carregar por tanto tempo aquela criatura que nem conhecia direito, de enfrentar todas aquelas aventuras.  Passou rápido, passou furtivamente em sua vida.
Saiu da sala com um ar mais leve, satisfeita e meio aérea. A rua traria desafios, a próxima semana seria de mais tensão, sua vida ganharia novos capítulos. Enquanto outras mães esperavam seus maridos para ir-lhes buscar, ela saiu caminhando pela porta, colocou seus óculos escuros e saiu para o ponto de ônibus mais próximo. Seu filho teria apenas mãe, o pai, este não existe mais para ela, talvez para o filho exista, para ela não mais.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Morte e vida ao bairro do Rosarinho.



Há dez anos, desde que vim morar por estas bandas, sempre que vou à Padaria, ao Parque da Jaqueira, à academia fico procurando casas antigas, construídas e preservadas com amor e com detalhes que só pessoas que levantaram a própria casa podem fazer. Porém, nestes últimos anos, minha admiração pelas casas vem transmudando para o susto ao ver que mais uma construtora comprou uma casa no bairro do Rosarinho. Há uns 5 anos tirei uma foto de um cenário que eu vislumbrava assim que saía de uma academia; ali começava a brotar os primeiros arranha-céus. Não sei se foi premonição, mas hoje, esta mesma “paisagem” encontra-se totalmente transformada e poluída pela quantidade imensa destes prédios em apenas um quarteirão.

Quando caminhava, ficava admirado vendo casas de dois andares, com muros diferentes, e quase sempre batia um pouco de curiosidade sobre a história de quem fez aquela casa, de quanto tempo mora ali ou por que construiu daquela forma? Hoje, quando saio a pé ou de bicicleta, fico surpreso e assustado; minha reação tem sido, “poxa, as construtoras compraram aquela casa também” .

Impressionante como o bairro do Rosarinho, que sempre fora conhecido como bairro de casas, ou de prédios de até três andares, está passando por uma transformação radical, com prédios cada vez mais altos e luxuosos. Na bela Praça do Rosarinho, às margens da Avenida Norte, uma grande construtora “comprou” aquela paisagem e está construindo um apartamento de quase 30 andares nas costas da praça. Uma outra está terminando outro prédio de frente para a praça, enfim, a paisagem está ficando sufocante, o ar que tinha aquele sabor de história está ficando “moderno” e não sei até quando vai essa onda imobiliária pelo bairro.

Mas eu não percebia isso, até bem pouco tempo eu vibrava com alguns belos empreendimentos, com a “modernidade” chegando ao meu bairro. Era bom saber que nosso imóvel estava ficando mais valorizado. Porém, ao ver que ao lado de um prédio que estava sendo construído, uma construtora rival tinha comprado 5 casas ao lado deste para aproveitar essa “valorização”, eu tomei um choque. Quase não acreditei vendo os tapumes ao redor de todas aquelas casas históricas que estão indo abaixo pouco a pouco.

A cada dia que ando pelo bairro eu vejo mais e mais casas sendo vendidas, mais e mais empreendimentos sendo lançados e mais e mais a história e o ar bucólico do meu bairro irem embora. Várias ruas, que são quase invisíveis em comparação com as grandes avenidas, já possuem congestionamentos consideráveis nas horas de saída para o trabalho e na volta, e tudo tende a piorar.

Hoje, após ver essa matéria no jornal, fiquei ainda mais assustado. Ao que tudo indica, os bairros do Rosarinho, Encruzilhada e Tamarineira irão “crescer” mais, várias casas ainda serão destruídas e os engarrafamentos em suas ruas quase bucólicas serão ainda mais constantes em certos horários.

Ironia ou não do destino, aprendi a gostar e amar este bairro, sua localização, sua vida e sua história. Mas estou de mudança, sairei de uma rua para outra, indo morar num desses novos empreendimentos do Rosarinho, quando dei por mim já estava aderindo à nova moda do bairro.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Sem sonho



Acordei meio confuso, tomei meu café da manhã, li o jornal do dia e sai para o trabalho como de costume. No caminho a mesma paisagem de concreto  poluída cercava-me sem poesia. Os carros tocavam sua música de costume, as pessoas seguiam como zumbis a algum lugar e a cidade, que se dizia viva pelas pessoas estarem indo ao trabalho, ou saindo para resolver seus problemas, na verdade estava morta. A vida que passa pela janela nunca é vida, é uma aparência de normalidade, mas essa não passa de uma repetição medíocre dos seres humanos, que de tanto repetir parece normal.
Aumentei um pouco mais o volume do som e fingi não perceber as pessoas ao redor... de olho no trânsito, era automático o movimento de acelerar o carro e desacelerar, indo no embalo da sinfonia do trânsito da cidade. A vida passava devagar naquela manhã.
As pessoas em seus carros conversavam, algumas sorriam, outras olhavam as horas com inquietude preocupadas em chegar na hora. O tempo não passava. A vida, simplesmente era igual.

Depois de algum tempo perdido na lenta marcha dos carros, como se estivéssemos numa marcha de um filme de Stanley Kubrick, em que os objetos se mexiam harmoniosamente ao som de uma sinfônica, mas na minha realidade, a única música que tocava era o barulho da cidade, cheguei ao trabalho. Liguei meu computador, acessei o login sem pensar, os dedos simplesmente sabiam as teclas que deveriam tocar, como um músico que ensaiara por diversas vezes a sua música e na hora do show sabia exatamente o que fazer, sabia tanto que tinha perdido o tesão de tocar aquela música, pois não havia mais emoção, apenas a repetição mecânica para não desafinar e errar.

Nos dez primeiros minutos tudo parecia tranqüilo, as responsabilidades com a sempre crescente papelada, o som de um bom dia automático e enjoado, revelando que a pessoa era obrigada a dizer aquela palavra e a outra obrigada a responder...

De repente faltou-me ar, os dedos pararam nos teclados e a única coisa que eu conseguia ouvir era o bater acelerado do coração: eu tinha perdido a capacidade de imaginar.
Não conseguia abstrair nada, a mera reflexão, ou um pouco de sonhos, nada! Tudo aparecia para mim como o presente nu e cru, como num niilismo sufocante. Olhava para a tela do computador e simplesmente sabia o que devia fazer, olhava para a hora e sabia que horas eram, eu entendia o mundo que me cercava. Eu não conseguia imaginar o mundo, sonhar soluções, procurar significados ou pensar no futuro. A capacidade de imaginação foi roubada por alguém que não sabia, não lembrava. Alguma criatura mágica roubou algo tão precioso de mim, que fazia agüentar o tédio de uma vida sempre igual e com os compassos marcados. A reflexão também tinha desaparecido. Eu vivia, apenas isso.

Tentei imaginar coisas simples, desde qual seria o placar do jogo, até realizar um sonho. Nada aparecia em minha mente, eu tinha virado um simples reprodutor de atitudes que eu já sabia aonde levariam. Não pensava em conseqüências, em medos, em prazeres. Vivia.

Olhava para minha mão e via todas as linhas, entendia o significado de cada linha, mas não conseguia pensar nisso, apenas reproduzia. Durante muito tempo eu tinha tentado escrever como o Ernest Hemingway, mas a capacidade de imaginação, agora afetada, prejudicaria o desempenho de um soldado das idéias e dos pensamentos mais obscuros. Tinha perdido a capacidade de sonhar.

Sem rumor, sem poder saber o rumo, sem refletir sobre o que era bom para mim... Esse emprego me agradava? Minha vida é de felicidade? Para onde irei? O que fazer com este livro? Aonde chegarei fazendo isso?

Todas as perguntas ficaram sem resposta, como também sem resposta ficou minha vida. Entrei na dança das pessoas comuns e normais, que vivem esperando uma resposta pronta para tudo, e não procuram nada que lhes agrade. Passei a sobreviver em cada dia.


Minha produtividade aumentou, minha concentração também, nunca mais perderia tempo com besteiras e coisas que não sejam relevantes, eu tinha virado um escravo de meu próprio pensamento, prisioneiro da própria rotina e dos medos tão mal consolidados. Sobrevivia, mas não vivia.

sábado, 12 de outubro de 2013

Devagar

De grão em grão a vida vai se construído
De pouco em pouco vamos vivendo
E neste passo devagar as coisas vão passando
E quando finalmente percebemos, não é a vida que vai devagar

É o nosso ritmo que é diferente.

sábado, 5 de outubro de 2013

ESCADAS


A velha segurava com força o corrimão da escada. De certo que sua força não era como antes, mas ela ainda continuava forte. Sua vida foi reduzida a quase incapacidade de viver depois de tanto tempo e tantas doenças, mas mesmo assim ela era capaz de encarar seus desafios e superá-los. Agora tinha mais um, descer estas escadas.
Quando menina descia esta mesma escada num pulo só, pegava impulsão e jogava seu corpo para frente. Não se machucava, não se feria, apenas tombava e o tombo a deixava feliz. Limpava a roupa e saia correndo para brincar com seus amigos na rua. Naquele tempo não era capaz de olhar para o futuro e se imaginar velha, mas hoje ela é capaz de olhar para o passado e para o futuro e saber exatamente o que aconteceu e o que vai acontecer. A vida passou como um filme, e quem a ver hoje não é capaz de imaginar que já foi bonita, simpática, guerreira, inteligente e que teve vários homens em sua vida. Quem olha para a velha tem pena, tem carinho, mas é capaz de entender a sua vida.
Desceu o primeiro degrau. Este foi fácil, as pernas embora lentas e pesadas respondem bem ao primeiro comando. A força no braço é o segredo, segure com força o corrimão, coloque a primeira perna e depois a segunda sem pressa, tente não perder a força segurando o corrimão. Você pode até tropeçar, mas não cairá se estiver firme no corrimão. Ela olhou para o fim da escada e percebeu que tinha muito o que fazer ainda, outros degraus precisavam ser vencidos, impulsionou o corpo para mais um degrau.
Na época em que descia com um pulo essas escadas, ela também conheceu outra escada, mas esta venceu a criança. No dia do santo da cidade seus pais a levaram para receber a bênção do padre e a fizeram subir aquela escadaria enorme da igreja. Seus pulos não funcionariam, o sol a cansava só de olhar e toda aquela multidão clamando aos céus e pedindo proteção a assustava vertiginosamente. Na entrada da igreja seu pai e sua mãe ficaram de joelhos, sem saber o porquê ficou também e os imitou naquele sinal de respeito. Todos os anos ela fazia a mesma coisa, não sabia, mas a mania de ajoelhar e pedir proteção na porta da igreja ela aprendeu com os pais, faz parte daquela infinidade de movimentos que copiamos sem saber quando surgiu e de quem surgiu.
Venceu o segundo degrau. Respirou fundo e sentiu o vento que descia daquelas escadas. Seu cabelo branco levantou-se, seu vestido balançou e seu medo não apareceu. Todos os dias era a mesma coisa, descer aquela escada sozinha, só ela e os degraus. Não tinha medo da morte, mesmo sabendo que uma queda poderia ser fatal. Não tinha medo da cama, não tinha medo de nada.
Enfrentou mais um degrau, o terceiro. Lembrou que na sua festa de 15 anos esta mesma escada foi a que enfrentou até chegar ao terraço lá em baixo. A casa estava cheia de gente, todos alegres. Seu pai já estava bêbado e procurando coragem para dançar a valsa. Ela olhou para aquela escada e teve medo. Não teve medo de descê-la, mas de ver o que a esperava no fim dela. Sua prima segurou o fim do vestido, ajudou-a a tomar coragem e perna por perna foi descendo aquele mar de pedras. A cada descida seu coração palpitava mais forte e tinha a sensação de que cairia a qualquer momento. Não caiu. Nunca caiu naquela escada. Quando chegou ao fim e que viu a multidão, seus olhos encheram de lágrimas e seu sorriso despontou no rosto. Foi recebida com abraços, uma salva de palmas e gritos de viva!
Desceu mais um degrau, o quarto. Fez uma pausa e olhou para o fim da escada. Estava próximo. Estava próximo o momento de descer tudo e finalmente poder viver aquele seu dia, só subiria novamente para almoçar. Mas até lá já estaria descansada. Respirou fundo, se equilibrou mais e desceu mais um degrau. O quinto.
Lembrou de sua formatura, seria professora. Com o canudo nas mãos desceu as escadarias do teatro que a separavam de seus pais. Naquele momento ela olhou para as escadas e sabia que as venceria, já estava com o diploma, o mais que viria seria vaidade. As lágrimas escorriam de seus olhos sem pausa, seu corpo tremia mais que tudo e seu coração pulsava algum enredo de carnaval, porque sua batida era frenética.
Abraçou seus pais e teve orgulho de si. Seu pai teve orgulho, sua mãe teve orgulho e ela teve mais uma vez orgulho.
Desceu o sexto degrau. Dessa vez não precisou esperar muito. Do quinto para o sexto aproveitou o embalo e simplesmente se deixou levar. Mas não poderia fazer isso sempre, o grande perigo ainda não foi vencido.
Desceu o sétimo degrau. As escadarias da igreja mais uma vez seria seu obstáculo. Vestida de noiva teve que subir alguns degraus. Vencer aquela tarefa não seria fácil, o vestido pesava muito, tinha muitos babados. O sorriso não deixava de sair de seu rosto e a ansiedade das pessoas dentro da igreja era capaz de sentir ali fora. Com o buquê nas mãos foi vencendo degrau por degrau, subir aquilo tinha sido a coisa mais difícil que tinha feito até então. Mas não teve medo, teve uma incontrolável felicidade, tanta, que não percebeu que subiu uma escada. Aquela visão, aquelas pessoas, aquele momento, tudo ficou em sua memória, foi capaz de lembrar do cheiro da natureza daquele dia durante vários anos.
Desceu o oitavo degrau. Nem sinal de um braço para ajudá-la, nem sinal de pessoas no piso a aguardando. Aquela missão seria a sua missão. Mas também, se alguém aparecesse naquele momento ela recusaria a ajuda. Desceu tudo aquilo sozinha e agora não precisava de mais ninguém, poderia descer sozinha dos degraus.
Neste momento as duas mãos estavam segurando o corrimão. Seu cansaço já era grande, suas pernas estavam ainda mais lentas e aquele exercício a fatigara imensamente. Mas estava próximo do fim.
No nono degrau não lembrou mais de nada e no décimo e último apenas suspirou com o fim. Ficou quieta olhando o terraço e a grade que a separava da rua.

Caminhou lentamente sem apoiar os braços em nada, não precisava mais. Segurou a sua cadeira de balanço e arrastou um pouco, era pesada. Arrastou mais um pouco e a deixou no lugar que gostava. Sentou-se. Estava ali, sentada no seu terraço, ali onde cresceu e viveu a vida toda, ali onde teve alegrias e tristezas. Agora era velha, não tinha muito o que dizer. Sentada, observava a vida na rua passar, olhava para fora, olhava a vida que fervia ali, depois das grades. Seu tempo é outro.