sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Sem sonho



Acordei meio confuso, tomei meu café da manhã, li o jornal do dia e sai para o trabalho como de costume. No caminho a mesma paisagem de concreto  poluída cercava-me sem poesia. Os carros tocavam sua música de costume, as pessoas seguiam como zumbis a algum lugar e a cidade, que se dizia viva pelas pessoas estarem indo ao trabalho, ou saindo para resolver seus problemas, na verdade estava morta. A vida que passa pela janela nunca é vida, é uma aparência de normalidade, mas essa não passa de uma repetição medíocre dos seres humanos, que de tanto repetir parece normal.
Aumentei um pouco mais o volume do som e fingi não perceber as pessoas ao redor... de olho no trânsito, era automático o movimento de acelerar o carro e desacelerar, indo no embalo da sinfonia do trânsito da cidade. A vida passava devagar naquela manhã.
As pessoas em seus carros conversavam, algumas sorriam, outras olhavam as horas com inquietude preocupadas em chegar na hora. O tempo não passava. A vida, simplesmente era igual.

Depois de algum tempo perdido na lenta marcha dos carros, como se estivéssemos numa marcha de um filme de Stanley Kubrick, em que os objetos se mexiam harmoniosamente ao som de uma sinfônica, mas na minha realidade, a única música que tocava era o barulho da cidade, cheguei ao trabalho. Liguei meu computador, acessei o login sem pensar, os dedos simplesmente sabiam as teclas que deveriam tocar, como um músico que ensaiara por diversas vezes a sua música e na hora do show sabia exatamente o que fazer, sabia tanto que tinha perdido o tesão de tocar aquela música, pois não havia mais emoção, apenas a repetição mecânica para não desafinar e errar.

Nos dez primeiros minutos tudo parecia tranqüilo, as responsabilidades com a sempre crescente papelada, o som de um bom dia automático e enjoado, revelando que a pessoa era obrigada a dizer aquela palavra e a outra obrigada a responder...

De repente faltou-me ar, os dedos pararam nos teclados e a única coisa que eu conseguia ouvir era o bater acelerado do coração: eu tinha perdido a capacidade de imaginar.
Não conseguia abstrair nada, a mera reflexão, ou um pouco de sonhos, nada! Tudo aparecia para mim como o presente nu e cru, como num niilismo sufocante. Olhava para a tela do computador e simplesmente sabia o que devia fazer, olhava para a hora e sabia que horas eram, eu entendia o mundo que me cercava. Eu não conseguia imaginar o mundo, sonhar soluções, procurar significados ou pensar no futuro. A capacidade de imaginação foi roubada por alguém que não sabia, não lembrava. Alguma criatura mágica roubou algo tão precioso de mim, que fazia agüentar o tédio de uma vida sempre igual e com os compassos marcados. A reflexão também tinha desaparecido. Eu vivia, apenas isso.

Tentei imaginar coisas simples, desde qual seria o placar do jogo, até realizar um sonho. Nada aparecia em minha mente, eu tinha virado um simples reprodutor de atitudes que eu já sabia aonde levariam. Não pensava em conseqüências, em medos, em prazeres. Vivia.

Olhava para minha mão e via todas as linhas, entendia o significado de cada linha, mas não conseguia pensar nisso, apenas reproduzia. Durante muito tempo eu tinha tentado escrever como o Ernest Hemingway, mas a capacidade de imaginação, agora afetada, prejudicaria o desempenho de um soldado das idéias e dos pensamentos mais obscuros. Tinha perdido a capacidade de sonhar.

Sem rumor, sem poder saber o rumo, sem refletir sobre o que era bom para mim... Esse emprego me agradava? Minha vida é de felicidade? Para onde irei? O que fazer com este livro? Aonde chegarei fazendo isso?

Todas as perguntas ficaram sem resposta, como também sem resposta ficou minha vida. Entrei na dança das pessoas comuns e normais, que vivem esperando uma resposta pronta para tudo, e não procuram nada que lhes agrade. Passei a sobreviver em cada dia.


Minha produtividade aumentou, minha concentração também, nunca mais perderia tempo com besteiras e coisas que não sejam relevantes, eu tinha virado um escravo de meu próprio pensamento, prisioneiro da própria rotina e dos medos tão mal consolidados. Sobrevivia, mas não vivia.

sábado, 12 de outubro de 2013

Devagar

De grão em grão a vida vai se construído
De pouco em pouco vamos vivendo
E neste passo devagar as coisas vão passando
E quando finalmente percebemos, não é a vida que vai devagar

É o nosso ritmo que é diferente.

sábado, 5 de outubro de 2013

ESCADAS


A velha segurava com força o corrimão da escada. De certo que sua força não era como antes, mas ela ainda continuava forte. Sua vida foi reduzida a quase incapacidade de viver depois de tanto tempo e tantas doenças, mas mesmo assim ela era capaz de encarar seus desafios e superá-los. Agora tinha mais um, descer estas escadas.
Quando menina descia esta mesma escada num pulo só, pegava impulsão e jogava seu corpo para frente. Não se machucava, não se feria, apenas tombava e o tombo a deixava feliz. Limpava a roupa e saia correndo para brincar com seus amigos na rua. Naquele tempo não era capaz de olhar para o futuro e se imaginar velha, mas hoje ela é capaz de olhar para o passado e para o futuro e saber exatamente o que aconteceu e o que vai acontecer. A vida passou como um filme, e quem a ver hoje não é capaz de imaginar que já foi bonita, simpática, guerreira, inteligente e que teve vários homens em sua vida. Quem olha para a velha tem pena, tem carinho, mas é capaz de entender a sua vida.
Desceu o primeiro degrau. Este foi fácil, as pernas embora lentas e pesadas respondem bem ao primeiro comando. A força no braço é o segredo, segure com força o corrimão, coloque a primeira perna e depois a segunda sem pressa, tente não perder a força segurando o corrimão. Você pode até tropeçar, mas não cairá se estiver firme no corrimão. Ela olhou para o fim da escada e percebeu que tinha muito o que fazer ainda, outros degraus precisavam ser vencidos, impulsionou o corpo para mais um degrau.
Na época em que descia com um pulo essas escadas, ela também conheceu outra escada, mas esta venceu a criança. No dia do santo da cidade seus pais a levaram para receber a bênção do padre e a fizeram subir aquela escadaria enorme da igreja. Seus pulos não funcionariam, o sol a cansava só de olhar e toda aquela multidão clamando aos céus e pedindo proteção a assustava vertiginosamente. Na entrada da igreja seu pai e sua mãe ficaram de joelhos, sem saber o porquê ficou também e os imitou naquele sinal de respeito. Todos os anos ela fazia a mesma coisa, não sabia, mas a mania de ajoelhar e pedir proteção na porta da igreja ela aprendeu com os pais, faz parte daquela infinidade de movimentos que copiamos sem saber quando surgiu e de quem surgiu.
Venceu o segundo degrau. Respirou fundo e sentiu o vento que descia daquelas escadas. Seu cabelo branco levantou-se, seu vestido balançou e seu medo não apareceu. Todos os dias era a mesma coisa, descer aquela escada sozinha, só ela e os degraus. Não tinha medo da morte, mesmo sabendo que uma queda poderia ser fatal. Não tinha medo da cama, não tinha medo de nada.
Enfrentou mais um degrau, o terceiro. Lembrou que na sua festa de 15 anos esta mesma escada foi a que enfrentou até chegar ao terraço lá em baixo. A casa estava cheia de gente, todos alegres. Seu pai já estava bêbado e procurando coragem para dançar a valsa. Ela olhou para aquela escada e teve medo. Não teve medo de descê-la, mas de ver o que a esperava no fim dela. Sua prima segurou o fim do vestido, ajudou-a a tomar coragem e perna por perna foi descendo aquele mar de pedras. A cada descida seu coração palpitava mais forte e tinha a sensação de que cairia a qualquer momento. Não caiu. Nunca caiu naquela escada. Quando chegou ao fim e que viu a multidão, seus olhos encheram de lágrimas e seu sorriso despontou no rosto. Foi recebida com abraços, uma salva de palmas e gritos de viva!
Desceu mais um degrau, o quarto. Fez uma pausa e olhou para o fim da escada. Estava próximo. Estava próximo o momento de descer tudo e finalmente poder viver aquele seu dia, só subiria novamente para almoçar. Mas até lá já estaria descansada. Respirou fundo, se equilibrou mais e desceu mais um degrau. O quinto.
Lembrou de sua formatura, seria professora. Com o canudo nas mãos desceu as escadarias do teatro que a separavam de seus pais. Naquele momento ela olhou para as escadas e sabia que as venceria, já estava com o diploma, o mais que viria seria vaidade. As lágrimas escorriam de seus olhos sem pausa, seu corpo tremia mais que tudo e seu coração pulsava algum enredo de carnaval, porque sua batida era frenética.
Abraçou seus pais e teve orgulho de si. Seu pai teve orgulho, sua mãe teve orgulho e ela teve mais uma vez orgulho.
Desceu o sexto degrau. Dessa vez não precisou esperar muito. Do quinto para o sexto aproveitou o embalo e simplesmente se deixou levar. Mas não poderia fazer isso sempre, o grande perigo ainda não foi vencido.
Desceu o sétimo degrau. As escadarias da igreja mais uma vez seria seu obstáculo. Vestida de noiva teve que subir alguns degraus. Vencer aquela tarefa não seria fácil, o vestido pesava muito, tinha muitos babados. O sorriso não deixava de sair de seu rosto e a ansiedade das pessoas dentro da igreja era capaz de sentir ali fora. Com o buquê nas mãos foi vencendo degrau por degrau, subir aquilo tinha sido a coisa mais difícil que tinha feito até então. Mas não teve medo, teve uma incontrolável felicidade, tanta, que não percebeu que subiu uma escada. Aquela visão, aquelas pessoas, aquele momento, tudo ficou em sua memória, foi capaz de lembrar do cheiro da natureza daquele dia durante vários anos.
Desceu o oitavo degrau. Nem sinal de um braço para ajudá-la, nem sinal de pessoas no piso a aguardando. Aquela missão seria a sua missão. Mas também, se alguém aparecesse naquele momento ela recusaria a ajuda. Desceu tudo aquilo sozinha e agora não precisava de mais ninguém, poderia descer sozinha dos degraus.
Neste momento as duas mãos estavam segurando o corrimão. Seu cansaço já era grande, suas pernas estavam ainda mais lentas e aquele exercício a fatigara imensamente. Mas estava próximo do fim.
No nono degrau não lembrou mais de nada e no décimo e último apenas suspirou com o fim. Ficou quieta olhando o terraço e a grade que a separava da rua.

Caminhou lentamente sem apoiar os braços em nada, não precisava mais. Segurou a sua cadeira de balanço e arrastou um pouco, era pesada. Arrastou mais um pouco e a deixou no lugar que gostava. Sentou-se. Estava ali, sentada no seu terraço, ali onde cresceu e viveu a vida toda, ali onde teve alegrias e tristezas. Agora era velha, não tinha muito o que dizer. Sentada, observava a vida na rua passar, olhava para fora, olhava a vida que fervia ali, depois das grades. Seu tempo é outro.

domingo, 29 de setembro de 2013

Tortura


Escrever pode parecer um ato de libertação, porém o escritor é um prisioneiro. Enquanto ele pensa que está livre botando para fora aquilo tudo que está entalado, engasgado ou preso que quer sair e ganhar forma no papel, ele está cada vez mais preso à procura da perfeição.
Quando começa a escrever ele se alivia no início e no fim. No início porque está conseguindo botar no papel aquilo que o atormenta. No fim, se alivia porque finalmente concluiu o texto.
O meio do texto é só tortura, é pesadelo, é suor, trabalho, sacrifício, morte, vida, vida e morte. Escolher palavras não é fácil, até porque elas não são presas fáceis, elas lutam paa não sair, para não ganhar corpo e viverem longe de seu dono. Enquanto o escritor sufoca porque as palavras não querem sair dele e desengasgar a sua respiração, ele pestaneja, chora, delira e desiste várias vezes e volta outras várias para o famigerado trabalho.
Aqueles que dizem se libertarem escrevendo, só pensam no fim do texto, o meio fazem questão de não lembrar. As palavras torturam. Nenhuma liberdade vem sem luta.
Mas nem sempre o fim é o fim. Dez anos após ter escrito aquele texto o escritor volta a lê-lo, acha bobagem, encontra erros e sente vontade de rasgá-lo, enterrá-lo e sente-se envergonhado pelo que produziu. O texto volta a torturá-lo. Ele não pode fazer nada mais. O texto vive no coração das pessoas, sua vergonha de hoje é o mote de muitos.
O escritor negará seu texto bem mais que três vezes, dirá que hoje escreveria diferente. O texto seria melhor, não sairia assim jamais.
Um texto nunca termina, por algum momento o escritor pode achar que concluiu, mas basta os anos passarem que ele verá todos os textos como rascunho, lixo e como um traço mal escrito de sua alma

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Todo dia era dia de índio.

Parabéns ao índio! Não aquele índio de estereótipo dos filmes Hollywoodianos. Não aqueles índios que no tempo do colégio as professoras inocentemente nos faziam colocar o cocar, ou uma pena, para ficarmos brincando, como que cultuando uma falsa união das três raças. Não o índio branco, amarelo ou pálido dos Romances da época do Romantismo Brasileiro, que numa vertigem desenharam o índio bom, o índio moço, o índio católico e herói, sem de fato debater seu extermínio. 
Sim eles foram exterminados, escravizados, expulsos de suas terras e seus direitos... Diretos? Seus direitos foram colocados ao relento. 
Um viva aos índios de verdade, não os caricatos! 
Um viva aos índios que foram obrigados a se matar para não terem que sofrer com trabalhos forçados impostos pelo homem branco. 
Um viva aos índios que contrariam doenças de branco.
Um viva aos índios que perderam sua identidade por causa de um processo de aculturação que definia a sua cultura, a sua língua e sua vida como Selvagem, primitiva e inferior.
Um viva aos índios do presente que lutam para terem seus direitos reconhecidos, sua cultura respeitada e suas TERRAS DEMARCADAS.
Todo dia era dia de índio.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Cartas de amor em época de sms




- oi amor, vc ta bem?

3 minutos depois...

- oi bebe, to otimo,e vc ta boa?

Alguns segundos depois...

- estou otima. Pq vc demorou a me responder?

um minuto depois...

- amor, to no trampo, fica complicado ficar no sms.

alguns segundos depois...

-mas nem pra me dar atenção? nossa, como vc ta frio....

cinco minutos depois...

- desculpe, mas no trabalho, meu chefe ta na minha cola, em casa falamos mais.

alguns segundos depois...

-ok, quando tiver tempo para mim a gente se fala.

tres horas depois...

-oi bebe, largou?

Dois minutos depois...

-ainda não, amorzinho. Largo em uma hora

Alguns segundos depois...

-ok, vou me recolher a minha insignificância.

Um minuto depois...

-oh amorrrr.

Uma hora depois...

- larguei, bebe, vc ta com saudade?

Alguns segundos depois...

- amorrr, to sim morrendo muito muito muito mesmo.

Alguns segundos depois....

-to cansado, pense numa pessoa com saudade tb, desde ontem ñ te vejo.

Alguns segundos depois...

-vem me vê hj, essa ausencia ta lasca.

Alguns segundos depois...

-vou comer em casa e depois eu vou ai, ta?

Alguns segundos depois...

-vem mesmo, vamos nos alimentar.

Uma hora depois...

-to em casa, jaja chego ai.

Alguns segundos depois...

-ebaaa, to esperando.

Alguns segundos depois...

-tava lendo no busao, antigamente os namorados se comunicavam por cartas que levavam dois dias para chegar, imagina?

Alguns segundos depois...

-não imagino, ñ sei como conseguiam, aff e muiiito tempo. Com um minutinho fico pra morrer de curiosidade

Alguns segundos depois...

-é, temos sorte.

Alguns segundos depois...

-sorte tem vc de me ter

Obs: as palavras não levaram acentuação de propósito.
Obs2: não há erros de português, o texto está perfeito assim. 

domingo, 24 de março de 2013

Estupro



Que abuso, querem devastar minha intimidade. Pegaram meus escritos, meus rascunhos e olharam atentamente como desnudando meu ser. Senti-me como uma mulher sendo devorada por olhares vorazes de homens famintos. Senti-me impotente, sem roupa e invadido na íntima privacidade. Meus textos são para meus leitores e não para meus amigos e parentes. Amigos e parentes me conhecem, me desnudam no dia-a-dia, o único lugar de libertação que possuo, o único lugar que posso metamorfosear as pessoas de meu convívio e homenageá-las ou chingá-las, não sei, tudo depende de meu humor, são nos meus textos. Meus!
Não sei quem deu tal permissão, invadir meu quarto como um posseiro, vasculhar meus livros e cadernos como detetive e desfolhar meus textos, meus textos como se fossem seus. Absurdo, no mínimo desrespeitoso e apavorante. Tanto trabalho que tenho para escrever um hora por dia, vejam, dedico um hora de um dia de 24 horas para fazer o que mais gosto. As outras 23 são um martírio, uma devassidão imensa e surreal, fico oco, recolhendo informações para colocar naquele papel branco e ameaçador.
Medo? Tenho muitos, no início tive medo do desconhecido, atualmente perco uns e vou ganhando mais. O que tenho mais medo agora, por exemplo, é que me desnudem novamente e eu fique desamparado sem saber a quem pedir ajuda. Estou completamente fraco e sozinho.
Quando estamos indo atrás de palavras para colocar no papel, não sabemos o que vai sair dali, talvez o que escrevi nem eu mesmo queira publicar. Mas é meu, eu decido o que fazer com aquele aborto literário.
Imaginem, me desnudar assim... Ainda sinto o coração tremendo e o suor frio descendo pela espinha quando a vi sentada na cama, olhos curiosos e boca entreaberta com admiração por ter descoberto meu segredo. Todos sabem que escrevo, mas não sabem como chego no que escrevo. Nossa, esta imagem ficará muito tempo em mim, um trauma, um estupro.