terça-feira, 12 de março de 2013

Exaltação do Recife nº 0




Exalto o Recife fedorento e esquecido das prostitutas e dos cabarés.
O Recife feio, que todos querem fingir que não existe, mas subexiste.
Exalto o Recife dos engarrafamentos e da pouca mobilidade
Que todos protestam para resolver e ninguém resolve.

Exalto o Recife do calor infernal, que de rio tem o Capibaribe que já virou canal. .
Exalto o recife dos camelos, dos ambulantes e dos feirantes
Que vendem produtos de baixa qualidade
Nas vielas e becos históricos.

Exalto o Recife escondido debaixo das Pontes
Esquecido nas páginas policiais
O Recife bom, o Recife velho é apenas uma metáfora
Nas fotografias e mentes dos Recifenses.

Exalto o Recife das grandes construtoras que compram os casarões
E constroem edifícios modernos, apagando a história

Exalto o Recife que ninguém quer que exista e todos querem
Que não viva.
Mas ele pulsa, ele fala, ele sobrevive e procria
Nas ruas e becos, nas falas e gestos
Nas páginas dos jornais
Nas lamas e nos quintais.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Cola



Eram 16:30, o sol já perdia sua força na cidade do Recife e as pessoas começavam a recolher-se para suas casas após um dia inteiro de trabalho. O ônibus parado em frente à praça do Diário tinha poucas pessoas, mas, em breve, estaria cheio. Subiram quatro pessoas nesta parada e o motorista deu, por fim, a partida. Subiu um senhor de 60 anos com uma sacola imensa nos braços, na certa era ambulante. Carrega nas costas o peso de seu trabalho e no rosto o peso de sua idade. Começou cedo a trabalhar. O pai, que era comerciante do Recife em tempos áureos, criou todos os filhos assim e deixou para o mais velho, como herança, a disposição para ganhar a vida.

O senhor não percebeu, mas na penúltima fileira havia um garoto cheirando cola, o cheiro podia ser sentido por todo o coletivo, mas o garotinho era quase invisível e o senhor acreditou que o cheiro vinha pela janela, já que naquela região a delinqüência era muito grande.

A senhora evangélica, que subiu logo atrás do senhor, percebeu o moleque quando andava pelo corredor do ônibus procurando um local para sentar e, ao avistá-lo, freou o passo e procurou um local pelo meio do ônibus onde poderia ficar segura. Era evangélica e acreditava que todos os males do mundo provinham da falta de Jesus na vida das pessoas. Ficou tentada a levantar e ir ler um Salmo para o “cheira-cola”, mas teve medo. Abriu um saco de pipoca e esqueceu do mundo. O cheiro de cola misturado com o cheiro da pipoca causaria um enjôo, guardando, em breve, a pipoca na bolsa para comer mais tarde.

O menino continuava lá atrás, quietinho, cheirando sua cola e olhando a janela vendo o nada. Seus bracinhos, seguravam a garrafinha com cola de forma maestral e, vez ou outra, ele dava uns relances de mudar o rosto de posição, ajeitar-se na cadeira e fitar as pessoas que entravam no ônibus.

A terceira pessoa a entrar foi uma garota com um fone no ouvido. Cabelo preso, calça jeans, camisa regata e óculos escuro. Sentou na última cadeira do coletivo, mas logo se arrependeria.  Percebeu o menino do lado oposto ao seu cheirando cola. Não teve medo, mas teve raiva. Queria matar todos os marginais de rua e inclusive aquele garoto. Se tivesse uma arma ali mandaria aquele garoto descer na base da pancada, e ai dele se não descesse. Aumentou um pouco o volume da música que ouvia e logo ficou enjoada com aquele cheiro, mas já seria tarde para mudar de lugar, pois o ônibus logo estaria cheio. Seu enjôo, descobriria mais tarde, também tinha a ver com sua gravidez ainda desconhecida.

O garoto não se incomodou com a menina, não a fitou. Olhava pela janela enquanto ela passava. Seus olhinhos vazios não pensavam e seu ser não sentia nada. Cheirava apenas, consumindo sua existência naquela garrafa.

A quarta pessoa que subiu foi um rapaz de 28 anos. O homem vinha procurando emprego e seu semblante refletia uma agonia infinita. Estava desesperado para ter, por fim, orgulho de si. Jamais tentaria suicídio, adorava muito viver e queria mostrar do que era capaz. Não tinha muito estudo, mas tinha muita determinação. A sua pele preta e seu cabelo enrolado eram sua identidade. Assim que passou pela catraca percebeu o marginal, e teve medo de ser roubado. O garotinho preto parecia bastante ameaçador. Sentou na primeira fila para não correr perigo de ser perturbado, e desejou imensamente que quando fosse descer aquele pivete não mais estivesse no ônibus.
O motorista parou em dezenas de paradas e em cada uma subia mais gente, até que chegou um momento que não subia mais ninguém, apenas iam descendo, aos poucos, os passageiros até o ônibus chegar ao seu destino.

O ônibus foi ficando lotado de uma hora para outra, e aquele cheiro de cola intrigava os passageiros da frente e intimidava os que sentaram atrás. A poltrona ao lado do garoto foi a última a ser ocupada. Um jovem desatento, com bolsa e farda, foi o último a sentar e não viu quem estava sentado ao lado. Só percebeu quando o cheiro de cola entrou por suas narinas e foi então que viu aquela figura grotesca alimentando suas narinas com aquele odor fétido. Se tivesse visto jamais sentaria ali, teve medo de perder seu relógio e de sujar a farda.

Na poltrona de trás do “cheira cola”, sentou uma mulher com um bebê de colo que esbanjava sorriso e distribuía beijos para a mãe. A criancinha, miúda como uma formiguinha, não falava, não tinha dentes e não percebia nada ao seu redor que não fosse cor e som. Não teve medo, não teve raiva, apenas sorria. A mãe, um pouco preocupada, tentou mudar de lugar, mas desistiu quando o motorista deu partida e o risco de cair com o bebê era muito grande. Os passageiros que foram em pé, olhavam a criança e ficavam encantados; os da lateral da mãe deram duas ou três olhadas e resmungavam do cheiro insuportável de cola.

O marginalzinho olhou o bebê nos olhos, mas seu olhar não tinha força de expressão, era um olhar triste e caído de quem tinha sono, muito sono. Não sabemos o que pensou aquele delinqüente, só sabemos que ele olhou fixamente e depois cheirou mais uma vez o tubo de cola.

As pessoas viam o garoto e depois não queriam mais vê-lo: era feio, cheirava cola, fedia e tinha piolhos. O homem mais alto do coletivo pensou em sentar no lugar do marginal, mas teve medo da reação das pessoas, já que ninguém reclamava e a viagem seguia.Pensou que todos estavam tolerantes com aquela cena grotesca. A viagem seguiu num silêncio sepulcral: os da frente intrigados com o cheiro da cola, os de trás com medo, ódio e revolta. O silêncio maior era do garoto, que não percebeu o ônibus encher de gente, nem percebeu o ódio no olhar das pessoas.

A sinfonia da viagem era o barulho do motor, as buzinadas da rua e os passos dos passageiros.

Um homem bem vestido, sentado no meio do coletivo, olhava inquieto para os lados e para frente. Parecia não conhecer o lugar e indagava para si onde deveria descer. Não sabia e não perguntava. O pavor aumentou quando o ônibus encheu e ele não sabia a quem perguntar.

O garoto olhava para a rua, coçava o nariz e não exprimia mais reação. Não tinha medo, não tinha calor, não pensava, não tinha sonhos. Estava ali, inerte no meio daquelas pessoas importantes.

A viagem foi longa, o cheiro de cola deixou muitos passageiros embriagados. Mas este era o alimento do marginal, e ele estava compartilhando com os passageiros. Sim, ele que não tinha nada, nem onde cair morto, compartilhou a sua única alimentação do dia com todos os passageiros do coletivo. E cada um deles, trabalhadores ou não, que comiam três vezes ao dia, que dormiam numa cama forrada de lençol e podiam pagar a passagem do ônibus, não dividiam suas comidas com ninguém, mas neste momento estavam ali, recebendo o néctar da criança.

O garoto, que por instantes era notado, mas depois era invisível, se morresse ali ninguém iria socorrer; se gritasse de dor ninguém se importaria, deixariam que este ser tivesse o fim que merecia. E num ritual de completa solidão, o garoto que pegou aquele coletivo por acaso, cheirava sua cola imberbe e perdido. Não tinha forças, não tinha brilho, não tinha nada. Abriu um dos braços como que querendo dormir encostado na janela – ninguém notou – se acomodou mais naquela cadeira e deu uma tragada mais forte no tubo de cola.

Abaixou a cabeça, fez o sinal da cruz e prosseguiu na sua viagem. Não tinha nome, não tinha história, não tinha vida. Aquilo que ele era não tinha definição. O motorista acelerou mais o ônibus, agora que saíra do engarrafamento podia recuperar o tempo perdido. Limpou o suor da testa e ligou o rádio que tocava uma destas músicas que exaltavam as belezas da vida.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Rapidinha.



E quando você encontra, ou reencontra outros escritores que trabalham produzindo artes poéticas para ninguém, ou quase ninguém, você se pergunta se é um encontro de poesias inacabadas ou poetas inacabados. A dúvida e o “ou” constante são apenas o mínimo reflexo da confusão que paira na mente deste ser que respira um verso, mas quase sempre cospe vogais soltas e num encontro desses, com velhos parceiros, simplesmente quer cuspir tudo o que digeriu do papo poético que teve.
A escrita perpassa não só pelo trabalho árduo de você conseguir colocar no papel o que sente, é também, ser capaz de transmitir para outros o que você pensa e aprender o que eles pensam. Sentamos num bar, conversamos pouco, os dias corridos roubam tempos de prazer e as palavras que gostaríamos de ter tempo de escrever: as palavras saem, mas surgem fatigadas pelo dia longo de cansaço.
Amizades não morrem, esfriam e basta uma chama que reacende. Nosso tempo de vida exige o ontem, pois para chegarmos no dia de amanhã devemos nos antecipar e termos “know how”. Já no tempo dos amigos, vivemos o ontem, pois o amanhã pode não chegar e precisamos dizer tudo que temos para dizer naquele curto espaço de tempo a que chamam de lazer.
E o tempo passou rápido, e como passou rápido, mal nos cumprimentamos na chegada com abraços e sorrisos, e já nos despedíamos prometendo um até logo, mas o até logo não tem um dimensão concreta e pode levar outros longos anos...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Neutro? Nem sabão em pó, camarada.



A primeira vez que ouvi esta frase foi em 2008 quando eu era um pobre neófito no movimento estudantil e um amigo refutou a tese de outro que se dizia neutro na política. Essa frase me acompanha até hoje e já foi minha reflexão durante muitas horas, inclusive quando tentava dormir. Inevitável, quando ouço alguém bater no peito dizendo que é neutro, eu lembrar desse acontecimento, soltar um risinho e ficar com pena da ingenuidade dessa pessoa.

A neutralidade, que muitos se gabam em ter, na verdade não existe: neutro nem sabão em pó, camarada. Todo mundo carrega na sua vida um posicionamento sobre algo, algum aprendizado, alguma cicatriz ou algum valor que ao ver determinada situação pode demonstrar uma atitude brutalmente conservadora ou francamente libertária. Esse lampejo reacionário ou de esquerda não é estereótipo, são fatos, você, eu, todos nós podemos ter comportamentos, emitir frases, ou compartilhar uma visão que seria de determinada categoria política e isso não te faz ser dela, mas simplesmente mostra que você a reproduz, nem que seja indiretamente. Todos nós em algum momento da vida já tivemos atitudes que foram conservadoras ou não.

Para quem se diz neutro, ter um comportamento julgado como de esquerda ou de direita é uma afronta. Ele fica chateado, bate no peito e diz: “ ah esses revolucionários com seus estereótipos, eu sou neutro rapaz, não tenho comportamento conservador nem de esquerda, sou acima disso tudo”. Neutro? Nem sabão em pó, camarada.

Você pode ser imparcial, neutro jamais. A imparcialidade é não tomar partido, ou simplesmente ficar fora de levantar bandeiras ou expressar apoio a causa A ou B. Ser imparcial não é ser neutro, simplesmente porque neutro não existe. Você pode não ter bandeira nenhuma e mesmo assim ser um autêntico cara com idéias de esquerda, ou de direita, ou ambas, não importa.

No direito, muitos acreditam no mito do juiz neutro, que o juízo não pode tomar parte na causa, que deve decidir com neutralidade e etc. Troque neutralidade por imparcialidade e a frase fará sentido. A justiça precisa de juízes imparciais, que não tomem parte durante o processo (na vida privada ele pode sim ter um lado de preferência). O juiz imparcial é justo, trata com eqüidistância as partes e dificilmente comete injustiças.
O juiz neutro é uma lenda como a do saci pererê, não existe e jamais existirá, porque a neutralidade é algo impossível de se alcançar.

Somos seres humanos e como tal acabamos simpatizando com uma tese A ou B, isso não nos faz sermos partidários de A ou B, simplesmente simpatizamos. E essa simpatia não quebra a imparcialidade, você é imparcial, mas concorda com B, mas não milita com B. Porém, neutro jamais você será, pois você pensa, você vive, você transmite idéias e convence.e neutralidade é a ausência de idéias e pensamentos. Portanto meu amigo, sem esse papo furado, e sem vitimização, muito menos tentativa de heroísmo barato para tentar se vangloriar perante os outros, pois neutro, camarada, nem sabão em pó.

sábado, 12 de janeiro de 2013

O único interesse dos EUA na Venezuela é o petróleo!



O petróleo Venezuelano foi o quintal dos EUA durante praticamente todo o século XX, até que, em 1999, Hugo Chávez decide fechar as torneiras, não do petróleo, mas dos lucros e dividendos que este produto trazia e passa a investir na melhoria do seu país. A Venezuela sempre ficou entre os primeiros lugares na produção de petróleo, até que recentemente foi divulgado que ela é a maior produtora mundial de petróleo cru, superando a Arábia Saudita.

Acredito que todos já estão sabendo que o Presidente Chávez, da Venezuela, está agonizando e sua morte é dada como certa pelos meios de comunicação. A morte de Chávez não é só a morte de um presidente que é anti-imperialista, ou que defende a União dos Estados Latino Americanos na busca de sua identidade, se Chávez morrer, esta será a morte de um presidente que controla a maior jazida de petróleo do mundo. O presidente que liderou a OPEP no início do século XXI, para que esta tivesse uma produção petrolífera estável a fim de não trazer instabilidade aos países produtores e conseguir um relativo lucro para ser investido. Além de ser totalmente contra a inferência dos EUA nos países produtores.

O petróleo é uma maldição! É assim como é conhecido o ouro negro. Maldição para os países pobres, pois a descoberta do mesmo nestes países só trouxe guerras, fome, desindustrialização e corrupção. Não há desenvolvimento, diminuição da desigualdade social ou progresso, tudo porque “ A maldição do petróleo” sempre operava em sentido contrário às promessas de melhoria. Ao longo da história mundial, a partir do momento que o petróleo começou a ser comercializado em escala global, a procura alucinante pelos países da Europa (Inglaterra e Holanda) e os EUA, relembrava a procura por terras que Portugal e Espanha tinham feito tempos atrás nas grandes navegações: dividiram o mundo entre os dois. Com o petróleo, as empresas petrolíferas, sempre a procura de baratear a produção e encontrar outras fontes de produção fora dos países de origem, para não esgotar suas jazidas, dividiram o mundo entre si, tanto na descoberta das jazidas, quanto na venda do petróleo, de forma que elas e somente elas pudessem produzir e lucrar com o petróleo.

Iraque, Irã, Cazaquistão, Kuwait,Venezuela, Nigéria, Argélia e Líbia estão entre os maiores produtores de petróleo do mundo. A semelhança entre eles? Nenhum deles possui um desenvolvimento de sua sociedade digno de nota. Antes da descoberta do petróleo tais países eram pobres, após a descoberta continuaram (me refiro ao povo, já que os governantes, durante o século XX eram corruptos e capachos dos EUA e criaram uma elite que tomava banho em banheira de ouro, enquanto o povo agonizava de fome), e então você pode perguntar, mas como pode acontecer isso, o petróleo vale muito dinheiro, países que produzem petróleo deveriam ter uma infra-estrutura melhor que qualquer outro país, desenvolvimento educacional e social diferenciado. Mas não é assim.

As grandes empresas que exploram o petróleo de tais países (excetuando a Venezuela que possui petróleo estatal) no momento da descoberta das jazidas prometeram levar investimentos, empregos, lucros e uma mudança social, mas isso tudo não foi verdade. Elas exploravam o petróleo ficavam com a maior parte do lucro e deixavam para o presidente (um capacho das empresas, uma fatia muito pequena dos lucros, que não dava para ser investido em muita coisa, era um roubo, assim como nas grandes navegações roubaram ouro e prata do novo mundo).

Todos esses países passaram por guerra civil, onde o interesse no petróleo era o pano de fundo para aquela população que se matava; o interesse dos EUA era manter as coisas como estavam. A dependência no petróleo como forma única de produção nesses países traz um enfraquecimento de seu parque industrial, suas moedas são desvalorizadas, seus governos se tornam corruptos e os governantes tentam ficar no poder eternamente, tudo com o Aval dos EUA. E quando o governo queria se tornar rebelde e não respeitar mais, eles alimentavam uma guerra civil ou invadiam simplesmente (Irã, Iraque, Kuwait) e depunham os ditadores colocados por eles mesmos e, se passando por paladinos da democracia colocavam outros ditadores que prometiam fidelidade eterna em troca de lucros eternos. E o povo continuava na miséria.

Na Venezuela o cenário era uma pequena elite muito rica e uma grande parte da população muito pobre, com alta taxa de analfabetismo e também, com alta taxa de mortalidade infantil. Tudo isso poderia ser ilógico se você levar em conta que a Venezuela durante todo o século XX era entre as três maiores produtoras de petróleo no mundo. O governo “democrático” não usava o dinheiro do petróleo para investir no país, a corrupção e os contratos que priorizavam as empresas Americanas deixavam o país na miséria, contrastando com os recordes de produção e venda do ouro negro.

Hugo Chávez, quando chegou ao poder mudou todo o cenário, acelerou a estatização das empresas petrolíferas, investiu os dividendos do petróleo em educação, saúde e infra-estrutura para a população, e desde sua posse, a desigualdade social tem diminuído vertiginosamente no país. Na Venezuela o analfabetismo é quase zero, e a mortalidade infantil também. Isso a imprensa imperialista não mostra. Durante todos os anos do governo tentaram derrubar Chávez chamando-o de ditador, que estava devastando a Venezuela, quando na verdade o governo dele trouxe a mudança social que o país precisava e o governo que a imprensa defende devastou e deixou a Venezuela na miséria.

Deram um golpe de estado no ano de 2002, prenderam Chávez, mas a população foi contra e no quarto dia da tentativa de golpe militar, que seria uma ditadura das elites, Chávez foi solto da prisão e reconduzido a governar o país de forma democrática. Tal tentativa de golpe é conhecida como “Puente Llaguno”; é  chocante ver a forma como as pessoas foram mortas pelos militares e como os meios de comunicação da Venezuela tentaram colocar a culpa em Chávez.

O governo de Chávez incomoda, primeiro porque ele controla a maior reserva de petróleo do mundo, e manda seus lucros para o desenvolvimento do país. A Venezuela não é uma ameaça militar a nenhum país, muito menos aos EUA.  Embora este país tenha passado por um desenvolvimento vertiginoso na última década, não se pode mudar em dez anos os cem anos de exploração e roubo que o país sofreu. Então fica difícil entender porque a Venezuela preocupa tanto os meios de comunicação e sua morte seria aplaudida de pé e a resposta fica clara quando você conhece a história do país: petróleo. Com a morte de Chávez ficará mais fácil para os EUA controlar o país, retomar a privatização da empresas e lucrar mais. Enquanto isso a elite sonha em voltar a nadar em dinheiro sem promover o desenvolvimento social necessário

A globo vibra a cada boletim que fala da saúde de Chávez, e o povo brasileiro sem entender também. Os jornais não se preocupam em informar, mas em desinformar e repassar noticias parciais da realidade do país e das mudanças que ocorreram. Uma pena, quem perde somos nós, vibrando para que Hugo Chávez morra sem saber quem de fato foi Chávez e torcendo para a devastação de um país.

domingo, 9 de setembro de 2012

Prêmio literário




E querem premiar a arte
 Como se pudéssemos
Colocar numa escala métrica
A métrica da poesia.

Querem eleger os melhores
E punir os piores
Como se na construção poética
Houvesse uma escala de Deuses e Semi-Deuses.

Querem destruir a arte entregando
Prêmios e qualificando com selos
Acadêmicos aquilo que não tem
Definição: a inspiração do poeta.

Querem glorificar a arte
Elegendo uma minoria sabichona
Da qual lhe falta
Entender o verdadeiro valor da poesia.

E de tanto escolher e de tanto saber
Vão esquecendo do poeta
Pobre e esfomeado que escreve versos
Para passar a fome.

sábado, 1 de setembro de 2012

Volta



Estava de volta à sua casa, olhava atentamente os móveis, já não estavam tão novos, mas continuavam limpos, sempre limpos, sempre sem um pingo de poeira.
A casa arrumada e velha mostrava que o tempo passava e que sua mãe não mudava. Encontrou naquelas paredes sua infância perdida. O cheiro de bolo passa agora pelas suas narinas, o cheiro de pão, o cheiro de salgadinho, o cheiro que sua mãe confeiteira carrega no suor e nas roupas: o cheiro de saudade invadiu-lhe o peito.
Andou pela casa tocando todos os móveis com a ponta dos dedos como se sentisse um pouco do passado, ou quisesse novamente deixar sua marca naqueles objetos de sua vida.
O seu quarto, que já não era seu, mas que estava intacto da forma que deixara estava arrumado, com livros nas estantes organizados por tamanho; a colcha e o tape formavam o cenário que jamais se apagará de sua memória.
Sentou na cama, olhou para tudo e teve uma vontade de chorar como fazia quando era criança, chorar de dengo, de saudade, chorar de morte, a morte de si próprio.
As lágrimas não queriam descer, suas lembranças começavam a invadir sua mente de forma quase a estuprá-la, ele resistindo, mas elas insistindo em entrar. Então seus olhos ficaram úmidos e por fim teve vergonha de si, vergonha de seu choro e vergonha de suas mãos que não são calejadas como a daquela mulher que lhe sustentara.
Desde o dia que partiu nunca mais voltara ali, sua mãe ficou sozinha e sua única forma de comunicação era por telefone em datas comemorativas importantes, eram divorciados de alma e pele.
Andou mais pela casa para sentir o gosto que já não provava fazia tempo, até que seu tio disse, Vamos, recolha seu terno, pois não podemos atrasar, Tudo bem, retrucou o homem ou o garoto? Não sabemos.
Recolheu seu terno, ajeitou a gravata e por fim sentiu que não era mais dali, sentiu que seu mundo não era essa e que essas lembranças foram besteiras sentimentais que acontecem uma vez na vida. Sentia que não era dali, mas sabia que algo seu ficou ali: por todos os lados sentia o cheiro de sua mãe, sentia o cheiro de bolo e sentia as marcas de suas mãos sujas de areia melando as paredes.
À caminho do hospital olhava silencioso a paisagem que o cercava e tinha vergonha de se dizer dali. Ia calado, sentado e encolhido no banco de trás como querendo esconder a cabeça. Olhava assustado e admirado com a paisagem que não mudara, que não crescera nem envelhecera. Parece que o relógio do tempo parou quando saiu daquela cidade tão infeliz. Sentiu mais uma vez que não era dali.
Entrou no quarto em que sua mãe estava internada, esta não o reconheceu, estava entre morta e viva, entre quase humana e uma deusa. Estava frágil, cabelos brancos, boca rasgada pelo sol e sem palavras para dizer.
Sentiu-se uma criança novamente, sentiu que precisava daquele colo, daquelas mãos em sua cabeça, daquele beijo, precisava sentir aquela pele quente lhe acariciar como a maior prova de amor que um ser humano dá a outro. Sentiu que era ele o fraco, mesmo sem estar doente.
Andou um pouco, se aproximou da mãe e meio reticente como sem saber o que fazer, sentou na beira da cama e ficou olhando-a com pena. O tio se afastou e deixou os dois a sós.
O filho não sabia o que dizer, não sabia por onde começar e não sabia onde terminara a última conversa que teve com ela. As conversas no telefone eram mero protocolo do qual já sabia de cor o que falar e o que perguntar, agora não sabia nada. Agora há sangue, há pele, há pessoas, há sentimentos. Não tinha uma palavra na boca, um gesto, um suspiro, nada! Não era filho dela.
Levantou, beijou a testa da velha mulher e tocou na sua mão. Há quanto tempo estes gestos foram feitos pela última vez? Ele não sabia responder.
Sentiu que aquela mão fria e macia o aprisiona, não deixa ele retirar a sua e não quer que ele vá. Teve pena de si.
Mas, mais uma vez ele foi feroz e não teve consideração, respeito e piedade: arrancou ferozmente a sua mão daquela cadeia e com um olhar de cólera desafiou sua mãe com um olhar superior. Ficou repetindo para si que ia embora,e por fim balbuciou, Vou embora. A mãe não respondeu, assim como não respondeu há 20 anos. Da outra vez ela segurou a porta e viu seu filho sumir da sua vista sem nem olhar para trás. Ela chorou por dentro. Ela morreu por fora.
Desta vez nada via, nada sentia, nada sofria.
Saiu da sala sem lágrimas nos olhos, sem arrependimento e com um sorriso amarelo no rosto, com uma sensação de dever cumprido. Sua função de filho foi executada, Agora só preciso voltar quando ela morrer. O tio dormia na cadeira sem preocupação. Deixou uma quantia de dinheiro no bolso da camisa do seu velho tio e foi embora sem olhar para trás.
Olhou o raio de sol que iluminava a calçada e seguiu seu caminho para fora do hospital: sua vida seguia, seu mundo girava, sua vida tinha um destino.