terça-feira, 5 de junho de 2012

Tudo muda


De manhã cedo, na calma e pacata Metrópole Recife eu me vejo numa dúvida, atravessar metade da cidade de carro ou de ônibus? Com pouco dinheiro e com tempo de sobra decidi enfrentar o trânsito e o transporte público da forma como dantes fizera: lendo algum livro. O trajeto seria longo, mas não seria cansativo, ler dentro de coletivos era um hábito tão comum para mim desde os tempos do vestibular, que já era craque em não perder paradas, era só dá uma espiadinha no caminho.
Como fazia tempo que não subia em um ônibus para um trajeto tão longo, eu estava bem feliz, duvido tanta felicidade vindo de mim se tivesse que fazer isto todo dia. Sentei no coletivo e comecei a leitura de um livro que já devorava fazia dois dias. Enquanto ia me embriagando nas palavras e imaginando em que caminho o ônibus estava, eu negava olhar pela janela do ônibus a paisagem que tempos atrás me deslumbrara. Da primeira vez que andei pelo Recife, sozinho, e à noite, fiquei deslumbrado. Tenho ainda guardado na memória a impressão que tive: minha cidade é bonita à noite. Aquilo para mim foi como a descoberta de um acontecimento mágico e no auge dos meus 15 anos, do qual eu também descobria a vida, o amor e a felicidade, descobrir o Recife fez parte de um ciclo de evolução. Toda vez ao largar do colégio fazia questão de pegar o ônibus que iria fazer o retorno no centro só para poder olhar as pessoas que subiam, olhar a cidade viva, saber o itinerário e acompanhar aquela vida que me foi negada até então.
 Poderia optar por já pegar o ônibus do outro lado da rua, ele já voltando de sua longa jornada pelo centro, mas ai não teria encanto, seria apenas um transporte coletivo e não um condutor à outra realidade. Hoje, quem diria, eu recusava observar a cidade já tão defendida e apreciada. Talvez tenha cansado da beleza; assim como nos relacionamentos, chega um momento que a gente cansa e precisa de um tempo para retomar o amor, ou simplesmente chegar a conclusão que tudo aquilo já cansou.
Embriagado na leitura não vejo o tempo passar e esqueço de olhar onde estou, durmo. Durmo dentro de mim. Acordo subitamente de um sonho, por Deus, não era um sonho, era um pesadelo. Me recomponho e vejo que não dormia, era a realidade. Acordar é sempre bom, mesmo que de um pesadelo. Ali estava minha cidade transformada. Tomei um susto quando vi que a imagem que tinha daquela região com sua beleza e encanto já tradicional, era agora tomada por uma nova beleza e encanto: a modernidade. Meu coração saltou do peito e senti uma leve sensação de que tinha pego o ônibus errado e aquele era outro lugar. Mas era o mesmo.
Tantas vezes passei por ali este ano e não tinha dado por esta diferença, como pode? Passei de carro ali umas tantas vezes procurando meu caminho, atento ao trânsito e ouvindo boa música que acho que perdi de admirar ou assustar com a mudança. Talvez, se tivesse visto a mudança gradativa não tivesse assustado com a mudança total.
Desci atordoado e procurando entender o que via, parecia que acordava de um sono profundo do qual eu não podia acordar quando quisesse, mas apenas um susto desse poderia ser capaz de tornar a realidade. Tinha que resolver umas coisas muito longe dali e a parada neste foi uma decisão difícil, embora tomada em poucos segundos.
Olhei atentamente o que estava mudando e tentei resgatar na memória a imagem que tinha do lugar, realmente nada mais estava ali, nada. Tive a sensação de não ser mais de minha cidade, de minha terra. Tive a sensação de que não era mais de Recife, era de outro lugar do qual eu não sabia ainda. Sinto que a mudança é algo inevitável mas que ela não vai vim para mim, ela acontece à parte de meu desejo e de minha memória. Quando menos percebemos, bum, teremos de engolir a nova realidade. Talvez eu esteja acomodado com a sempre paisagem linda e poética retirada dos poemas de Bandeira ou da música de Lenine, é difícil engolir um abuso tão grande.
Não sei, mas acho que é assim também em tudo da vida. Quando nos acomodamos e simplesmente achamos que a vida está como estava antes, que não há uma fúria no outro ou na paisagem que nos rodeia, simplesmente ficamos para trás e é difícil acreditar que tudo esta mudando, menos a gente. Não sei se é uma mudança para melhor ou pior sei que é uma mudança da qual eu nem se quer cogitei em mim. É difícil para um casal quando um diz, “eu mudei e vi que a vida a teu lado é um martírio, você não muda”, palavras assim podem fazer você acordar de um estado de torpor do qual certamente não acordaria se a pessoa simplesmente fosse carinhosa e tentasse não assustar. Às vezes uma bofetada na cara ou na boca do estômago do comodismo é a melhor solução para perceber, enfim, o que acontece ao teu redor.
A vida moderna consome tanto, a vida é aquela que nos pede atenção e vitalidade, pede comprometimento e especialização, e quando achamos estar vivendo ela bem, percebemos que simplesmente estamos fechando os olhos para o que realmente importa: a gente.
 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O baú


Quando comecei a te contar minha história senti uma necessidade de me rever. Comecei a vasculhar meu baú, encontrar aquela menina que fui e hoje não sei se sou. Eu precisava também, saber se aquela que eu dizia era realmente aquela que eu era. Confesso que revirar tantas histórias, lembrar de coisas que eu não sabia se devia lembrar foi uma experiência mágica, coisa que psicanalista nenhum consegue revirando a mente de uma pessoa. Tantos fatos que há fora de nossa mente, fora de nossa vista. Tive o primeiro susto ao encontrar brincos dos quais não usava fazia tempo. Não lembrava porque os guardara, nem sabia quando tinha acontecido isso. Coloquei-os nas orelhas e voltei ao serviço, antes dei uma olhada no espelho e vi que estava bem com aquele par e senti o rejuvenescimento batendo na alma, rejuvenescimento com coisas antigas. Voltei ao serviço.
No baú estava jogado tudo que eu não usava mais. Não sei se eu não queria mais usar, se eu desgostava do uso, cansara, ou simplesmente queria esquecer aquelas coisas todas. Encontrei cartas, muitas cartas. Cartas de alguns ex-namorados e cartas que são, na verdade, bilhetes. Engraçado lê isso tanto tempo depois, parece um registro histórico mas não tem nada histórico, são coisas que a gente guarda para guardar de lembrança, mas uma lembrança que nunca vamos reler. O Pessoa tava certo, “todas as cartas de amor são ridículas, mas só as pessoas quem não escreveram cartas de amor é que são ridículas”. Hoje, ao lê-las, tudo parece tão simplório, aquele grande amor que ficou registrado não passa de linhas no pape e lendo sinto uma frieza nas palavras. Ridículo, mas necessário. Joguei novamente as cartas no fundo do baú, lá é o lugar delas, um dia mostrarei a alguém que já tive cartas de amor. Encontrei no meio ingressos de filmes imperdíveis, de shows e até um pedaço de cartão de crédito que foi do meu primeiro presente de adolescente.
Dentro do baú há também muitas blusas, shorts, e até um par de sapatos que usei no meu ensino médio. Minha nossa!, não sabia que havia guardado tanto coisa, cada uma com uma história da qual eu não lembrava, cada qual com sua carga de preciosidade.  Esta blusa usei nos meus 15 anos na hora da festa após aquele baile interminável e cansativo. Nossa, e ainda conserva o cheirinho. Encontrei fotos de minha família, alguns que já se foram... vovó, vovô, a foto do meu cachorro, sim meu cachorro que foi enterrado como se gente fosse. Nunca pensei que fosse tão bom revirar o baú de minha vida. A gente vai colocando aqui toda a nossa vida e esquece de observar, mensurar e excluir. Mas agora vejo que nada deve ser retirado, tudo faz parte de mim ainda, tudo ainda está vivo porque para mim tem um significado. Meus filhos se um dia forem revirar meu quarto após minha morte e encontrarem este baú, na certa, o tratarão como algo cheio de coisas velhas; para eles isso é algo morto como o dono. Mas não, aqui há história. Na certa eles olhariam as peças, não entenderiam o significado de umas e esvaziariam o baú e depois levariam ele a um brechó e com todas as outras coisas não saberiam o que fazer e, certamente, o lixo seria a solução.
Infelizmente é assim que fazem quando pessoas estranhas invadem nossas vidas, não conseguem entender o real significado de certas coisas estarem ali, simplesmente acham que nada faz sentido porque não são capazes de entender o que aquilo carrega. A morte do dono é também a morte de sua obra e de tudo o que juntou. A posteridade nunca entende o que é nosso só nosso e que não deixamos ninguém invadir.
Resolvi parar tudo. Eu não precisava mais daquilo, já tinha me redescoberto e já sabia quem eu era, eu sou eu. As coisas do baú são minhas, todas são minhas, todas tem a sua importância que eu entendo muito bem. Nada pode ser descartado, nem as cartas de amor.
Dotada de uma felicidade da qual fazia tempo que não sentia, ela guarda todos os seus documentos, todas as suas roupas, fecha o seu baú e joga dentro do armário. Lá está bem guardada minha memória, a salvo de invasores e a salvo de mim, eu não posso bagunçar aquilo, aquilo é meu, aquilo sou eu.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Nasce um eu lírico


Eram tempos da sétima série na qual os jovens deixavam aquela mania de serem os heróis dos filmes e desenhos e queriam ser heróis de verdade. Heróis do povo, seja como músico, ator ou até professor. Eram tempos em que a puberdade estava latente naqueles seres tão obtusos, que acreditavam saber mais do que sabiam; seus corações falavam de liberdade, de amor, de sexo e eles mesmos se reprimiam sem saber, de fato, o real significado da liberdade. As conversas se baseavam nas novidades que o mundo trazia: filhos da era da Internet, do celular, das músicas digitais, nós fomos cobaias de um mundo que queria se mostrar novo; nós as cobaias do novo século não sabíamos que o nosso gosto ia definir o gosto do futuro, muito menos sabíamos que o mundo estava mudando. Para nós não existia o ontem, o depois, existia o agora e o agora era como sempre fora.
De toda essa metafísica, de todos estes sentimentos, aquele que talvez fosse mais difícil de conviver era a sinceridade. A sinceridade para os adultos era algo complicado, devia ser mensurado para não ferir o outro. Para os jovens, a sinceridade era algo mensurado para não nos ferirmos ou perdermos o respeito dos colegas.
Nossa professora de redação era também nossa professora de gramática e nos acompanhou desde a 5º série, ou seja, talvez ela conhecesse mais todos nós que nossas mães. Pode acontecer, afinal, nossa sinceridade em casa é tolhida para se revelar na rua e vice-versa, quem sabe. A professora queria saber, apenas, a nossa sinceridade.
Uma senhora amável, sempre sorridente, acho que senhora traz uma sensação de que fosse velha, mas tinha no máximo uns 30 anos. A vida às vezes nos parece injusta com as palavras e sendo professora de redação ela bem sabia disso.  Com um sorriso no rosto ela entra em sala, coloca os fichários na mesa e diz que “hoje vocês vão fazer uma redação e me entregar ao fim da aula”. A turma toda, obviamente, contestou. Ninguém queria sofrer em tão pouco tempo, mas a mesma nos acalmou com sua autoridade de professora, “não adianta, eu quero para hoje e o tema será sobre o primeiro beijo”. A sala toda fez um silêncio como que se sentindo invadida em sua intimidade, sendo roubado pela primeira vez aquilo que não contávamos a ninguém ou para poucas pessoas, não sei explicar.
Eu ali estava calado, no meio da sala, calado fiquei. Não lembro o que se passava na cabeça, apenas queria fazer aquela redação. Nunca fui um gênio nas redações escolares porque o que eu queria escrever nunca era o que a redação permitia. Nem por isso eu era um mau aluno, pelo contrário, dentre os colegas da idade eu escrevia até bem. Após alguns cochichos e risos, a turma já se conformara com o tema e já fazia piadas do que iriam escrever. Eu silencioso estava, silencioso fiquei.
Não pensei muito e fui escrevendo sobre o tema, sobre a experiência que tinha, ou seja, nenhuma. Fui sincero com a professora, escrevi uma carta para ela com toda a liberdade que um texto dissertativo não permitia; acho que tal liberdade nunca mais uma prova de redação me daria. Em pouco tempo revelei naquelas linhas que nunca tinha beijado, que também não tinha pressa, que estava mais preocupado com os estudos do qual, quem sabe, o namoro poderia atrapalhar. Disse que a vida era muito mais que aquele sentimento e que estaria esperando o primeiro beijo com o coração aberto, e ele viria somente no dia que estivesse preparado. Simples. Escrevi e entreguei à professora aquela que para mim tinha sido uma redação comum, só que com mais liberdade. Lembro que não demorei muito escrevendo, apenas queria brincar no intervalo.
Surpresa tivemos na aula seguinte, “quando eu mandei vocês escreverem sobre o tema eu esperava a sinceridade, então o que eu li de vocês foi receitas de como treinar o beijo, confissões de quantos beijos deram, e até coisas das mais absurdas, como dos problemas que tiveram tentando beijar. Mas uma redação - nesse momento senti o coração gelar - uma redação foi sincera, linda, poética e inocente do jeito que ninguém foi. Já li na outra sala, na sala dos professores e vou lê aqui para vocês, o aluno mereceu um nove (a maior nota) pela sinceridade. Bem, se ele quiser eu revelo quem foi, e digo logo que foi desta sala – ela olhou para mim e viu meu rosto vermelho, estático, com uma cara pedindo que não revelasse - pois bem vou lê”.
Leu toda a redação e os alunos riram de alguns trechos, ela riu de outros, mas no fim estava admirada, sei lá, talvez sentisse uma sensação de esvaziar seu peito, dessas sensações que fazem valer à pena a escolha de nossa profissão.
Toda vergonha estava em mim naquele momento. Contudo, fiquei feliz por ela ter gostado e da nota que tinha tirado, mas estava profundamente confuso, sem saber nada do que aquilo significava. Alguns alunos descobriram que fui eu o autor, mas não conseguiram provar. Talvez perceberam a cara dela ao entregar a minha redação, talvez viram meu nome ao atravessar a sala com a redação nas mãos, não sei.
Não sei se ela tirou cópia da redação, ou se aquele incidente a acompanhou pelo resto de sua vida; no mesmo ano ela casou e foi morar em outro estado. Minha mãe leu a redação e fez uma cara de simpatia para comigo, que não sei definir bem até hoje o que significava. Talvez ela tenha visto ali a sua educação no filho, os pensamentos de que um dia o garoto vai agradecer por ter pensado assim, na sinceridade não sei.
Mas este fato, talvez a professora não tenha percebido, minha mãe também não e muito menos os alunos, colegas de sala, que aquela redação representava o nascimento de um escritor. Sim, ali havia uma semente de algo que viria a ser a única razão da existência desta pessoa: as palavras. No momento ninguém percebeu nada, inclusive eu, mas hoje olho para o passado e vejo que aquilo significou a maior liberdade poética que um escritor pode querer, muitos, talvez, até hoje não tenham conseguido ser sinceros consigo e ter escrito no papel o que realmente queriam dizer. Eu, com pouco mais de 12 anos, não sabia, mas tinha descoberto a essência do escrever. Escrever é um ato de libertação e de sinceridade.
Certa vez, li um texto de Jorge Amado no qual ele confessava que havia passado por algo parecido, só que no seu caso foi um padre muito intelectual que havia descoberto nele, um escritor e ajudou o garoto na construção de seu universo poético. Em vez de beijo, o tema foi sobre o mar, em vez de vergonha, Jorge Amado sentiu-se orgulhoso e foi respeitado pelos coleguinhas. Contudo, após a leitura do texto de Jorge Amado foi que me toquei do meu passado e daquele fato que estava já sepultado em minha memória, aquele foi o momento que descobri que eu também tinha tido um nascimento como escritor, um nascimento poético.
Já faz sentido o porquê de tantas coisas lançadas ao papel como um desabafo. A partir daquela redação foram se seguindo ao longo dos anos várias confissões, havia em cada uma a poesia, o lirismo da libertação, e hoje há um homem à procura daquela criança que não tinha medo, que apenas queria escrever para poder brincar no intervalo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Descartando vinis

                             
Eu tinha um disco de vinil, joguei fora. Joguei também as caixas e toda aquela tralha. Não vou contar a minha história, para que contaria? Joguei-a fora. Peguei os sonhos, embrulhei numa caixa e descartei pela janela, talvez tenha sido mais fundo, talvez um precipício, ou atirei no mar. Junto com os sonhos foram às esperanças, os planos e algumas pessoas que eu julgava essenciais para mim num certo momento; sim descartamos pessoas.
Acredito que a vida é meio isso, o tempo passa e vamos nos desfazendo daquilo que não presta ou que dizem ser antiquado, desatualizado. Queremos sempre comprar o moderno, viver o moderno, ficar na moda e sermos “presentes” com o que o mundo dita de “presente”. Mas pensamos apenas em nós, pensamos na felicidade momentânea e não pensamos no que construímos. Talvez você jogue junto com a vitrola sua imensa coleção de vinis. Nenhum problema, você faz outra só de cd’s. Pode até ser a mesma coleção do artista, mas não será mais a mesma coleção: não terá a mesma poesia nem lirismo.
Pessoas são todas iguais fisicamente, emotivamente, e até em gostos.  Amigos também são iguais: pagam a conta, ligam nos momentos difíceis e aparecem em fotos. Mas nunca são as mesmas pessoas.
O tempo vai passando e vamos moldando o que tínhamos por sólido em algo mais tangível à realidade, mais aceitável, mais fácil, por quê?  Talvez a coleção de vinil não seja mais sua, já se perdeu no tempo. Talvez o seu eu, agora, seja colecionar cd’s. O grande problema é que nem sequer pensamos em nossos atos do presente, e talvez nem pensaremos no futuro, apenas fazemos. Jogar uma vitrola no lixo não é simplesmente jogar uma vitrola no lixo, é algo que nasce de um tempo que nem nós sabemos, não nasce com a gente. Alguém produziu o cd, alguém comercializou e pronto, nos vemos obrigados a mudar. Conhecemos novas pessoas, não sabemos de onde elas vieram e pronto, nos encantamos e queremos descartas as antigas. Velhas namoradas não inspiram o mesmo prazer que uma nova namorada, velhos amigos não inspiram o mesmo prazer que novos amigos.
Vivemos novas pessoas e somos “obrigados” a descartar as que não nos servem mais, somos “obrigados” a viver uma nova aparência com o medo de desagradar. E no jogo das aparências desagradamos a nós mesmos. Descartem vinis, descartem pessoas e sejam felizes até enjoarem da “felicidade”.

sábado, 5 de novembro de 2011

O papel da mídia na contenção social




Muita gente já percebeu que agora a periferia é algo que está mostrando as caras na mídia. O que vemos é uma chuva de denuncias contra ruas não calçadas, saneamento básico, praças não conservadas ou caminhão do lixo que não passa nas ruas. O projeto que tenta fazer o povo mostrar sua voz e sua cara na televisão e mostrar os “problemas” pontuais a que passam os bairros, na verdade são uma tentativa de calar a voz dessa população a margem de seus direitos com ganhos pontuais que não mudam sua condição de vida, trazendo uma falsa sensação de participação numa sociedade excludente e que deseja a segregação e apaziguamento das periferias.

O que empresas como a rede globo nordeste vem fazendo, juntamente no seu programa NE/TV é algo que vem sendo feito pela emissora em vários lugares do Brasil. Além de perceberem que as classes c e d dão audiência, uma forma de abocanhar esta fatia considerável dos consumidores de imagens (também em TV digital) é ir lá, no seu bairro, mostrar sua rua não calçada e cobrar do prefeito a “melhoria” de suas vidas.

Claro que todo mundo quer sua rua calçada, coleta regular e um bem estar de vida que possa lhe dar qualidade no seu dia-a-dia, mas a “cobrança” da mídia, na verdade, não passa de uma máscara para dirimir conflitos sociais e ao mesmo tempo servir para a empresa a falsa imagem de  paladina da justiça e verdade perante a população.
 O papel da imprensa é muito forte, uma matéria veiculada numa emissora em um horário nobre é influenciadora de milhares de pessoas. E esse poder não é negligenciado por elas, tanto é que comerciais são mais caros em certos horários. Acontece que, numa busca para ganhar audiência das concorrentes, que no mesmo horário passam programas com níveis de audiência também altos, exemplo de cardinot e Cia, criaram uma forma de o povo sugerir, denunciar e a reportagem ir lá resolver o “problema” de seu bairro.

Qualquer intelectualóide de esquerda (ou os que se dizem) reclamam que o povo é alienado e que não participa da construção da democracia, ou não clamam por seus direitos. Agora, com esta “preocupação” da rede globo em ir ouvi-los e solucionar os infortúnios por que passam, não podemos criticar a forma como a tão sonhada participação do povo na democracia vem se dando.

Esta forma de abordagem e solução esconde uma contenção de demandas. Uma rua não calçada é certamente um tormento, mas com toda a certeza o problema da localidade não é só esse, aparente aos olhos; há problemas estruturais que não são debatidos com a população, trazendo a falsa conformação de que eles apenas precisam de uma rua calçada para serem felizes.

O processo de conscientização já é de todos conhecido, não é mola mestra da mídia, muito menos da rede globo, portanto esta caridade feita é apenas uma ponta de iceberg que tenta dirimir conflitos e trazer uma falsa sensação de paz. Morar na periferia não é ruim se você tem um esgoto bem tratado e o lixo passando na rua, é o que querem mostrar.
Mas eles não tem o intuito de debater e problematizar para os governos e as populações problemas anacrônicos, como demandas sociais por moradia, ou a conscientização do voto, ou a importância de uma organização comunitária para efetivar contendas e problemas que de fato são necessários para a comunidade. Ajeitar uma praça é ótimo, mas trabalhar na educação de jovens e adultos e não só isso na sua conscientização e no oferecimento de condições para que tenham suas vidas melhoradas não é debatido e tão pouco proposto.

A sensação que tenho é que estes programas de televisão tem um acordo com os prefeitos: “só vamos pedir que calcem as ruas, não vamos pedir uma educação de qualidade, fique tranqüilo.” E neste jogo de fantasias a mídia vai ganhando respaldo, a população vai tendo suas necessidades aparentes satisfeitas e as contendas vão sendo dirimidas trazendo uma falsa sensação de que tudo está bem no Brasil e nas periferias, porque lá já calçamos as ruas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

nada

Deu vontade de escrever algo neste blog, de repente vi que era apenas vontade pois as apalavras não chegram. Faltou o mote inicial, então divago a propósito do que seria escrever, se um puro tesão ou a elaboração de um querer. 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

As mulheres que conheci





As mulheres das quais tenho contato
E não são poucas
São tão contraditórias e confusas que chego
A me perguntar se não seriam todas irmãs
E filhas umas das outras

As mulheres que conheci não tinham sonhos na vida
Não desrespeitavam seus maridos
Não levantavam a voz
Eram fies donas de casa, faziam a comida
Organizam o lar e educavam os filhos

As mulheres que conheci
Eram o exemplo que a sociedade quer e recomenda
Que sejam.
Não tinham sonhos, não tinham objetivos
Suas alegrias eram as alegrias dos outros
E sua vida se resumia a comentar
A vida dos outros

As mulheres que conheci apanhavam dos maridos
Se calavam com cada soco
Chute e agressão
Suas vozes eram silenciadas pelo medo
Pela vergonha, pela falta de opinião
As mulheres que conheci estão mortas
Enterradas em algum lugar
Esquecidas em todo lugar.